12 de março de 2005

Pânico


Não pude deixar de ouvir a conversa no balcão ao lado, na farmácia. Enquanto aviava a pílula - coisa que raramente faço, uma vez que o meu pai é, tradicionalmente, o avia receitas da casa - uma miúda de mochila às costas, ao meu lado, comprava um teste de gravidez, cujo resultado se previa positivo pela expressão tensa de pânico espalhada no seu rosto. A farmacêutica que a atendia, com uma insensibilidade atroz, estendia-se em explicações detalhadas sobre o teste em questão, as cores, o tempo de espera, o procedimento, sem pressa, ignorando a expressão assustada “tirem-me daqui” da miúda. No meio teve ainda tempo de brincar com o farmacêutico que me atendia, e que precisava dum x-acto emprestado.

Não posso deixar de pensar no destino da miúda, provavelmente determinado na casa de banho do shopping, em absoluta solidão. Acabará possivelmente com uma criança nos braços antes de tempo, que inevitavelmente será criada pelos avós, e com o futuro traçado por um imprevisto. Ou então num qualquer terceiro andar da Amadora, onde lhe farão o serviço rapidamente, sem condições, a preço elevado. Qualquer que seja a escolha, nunca mais será a mesma.

Felizmente nunca passei por isso, pelo sufoco de uma possibilidade não desejada, assustadora. Também nunca me arrisquei a que acontecesse, dramática como sou nem conseguiria gozar nada só com o medo de uma gravidez indesejada. Graças aos óculos e ao aparelho nos dentes, também não tive que me preocupar com isso demasiado cedo, tendo tido tempo de crescer e me informar bem sobre todos os métodos contraceptivos antes de precisar de usá-los. Talvez tenha tido sorte, ao contrário de tantas colegas de escola que vi engravidarem antes dos 18.

Espero que no dia em que comprar um teste, seja por desejar que o resultado dê positivo.

3 comentários:

  1. é inconsebível nos "dias de hoje" este tipo de situações. Fiquei chocado com o estudo recente divulgado no noticiário sobre a eleveda percentagem de jovens que praticam o amor sem protecção!Não me venham com lérias mas hoje em dia não há desculpa para a não prevenção.
    é triste...

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  2. A nível europeu, caminhamos a passos largos para a destruição de tabus, nomeadamente os sexuais. A iniciação sexual ocorre cada vez mais cedo, é um facto que temos que encarar.
    Na Europa desenvolvida, os pais são os principais interessados em esclarecer os seus filhotes relativamente à contracepção.

    Em Portugal, com o atraso social e cultural em que vivemos e em que estamos habituados a viver, talvez daqui a vinte anos as míudas de doze ou treze anos possam ir à farmácia pedir não um teste mas uma caixa de preservativos, sem que ninguém se choque!

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  3. Definitivamente um dos melhores blogs a que fui parar nestes ultimos meses.Parabéns

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