8 de fevereiro de 2012

Escuta, Zé Ninguém


Chamam-te «Zé Ninguém!», «Homem Comum» e, ao que dizem, começou a tua era, a Era do Homem Comum. Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vice-presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos. Dão-te o futuro, mas não te perguntam pelo passado.
Wilhelm Reich

O Escuta, Zé Ninguém é um apelo ao inconformismo, uma reflexão sobre o poder de cada zé-ninguém, isto é, de cada anónimo a poder apenas obecer e conformar-se, ou revoltar-se e mudar o caminho da sua era. Ou seja, sobre o que nós, individualmente, podemos ou não fazer. Esta foto tem sido muito reproduzida ultimamente, e mostra-nos um homem, no meio de centenas, talvez milhares, a não agir colectivamente mas a manter-se fiel àquilo em que intimamente acredita, independentemente das consequências. O homem era August Landmesser e, quando a fotografia foi publicada num jornal em 1991, foi reconhecido pela filha, que certamente se terá sentido orgulhosa ao comprovar que o seu pai, entre milhares, se tinha mantido sempre fiel às suas convicções.

Quando pensamos no holocausto, no nazismo, todos nós gostamos de pensar que seríamos August Landmessers, e que nunca na vida seríamos capazes de compactuar com tal barbaridade, mas a verdade, como esta foto comprova, é que a maioria de nós se conforma, levantando o braço em sinal de acordo, e só uma pequena minoria se revolta e combate o sistema vigente, por mais inumano e abjecto que seja. E por mais que nos custe, no nosso sentido moral de quem vive em democracia e sem medo, convictos de que nos teriam horrorizado os campos de concentração e os assassinatos em massa, a verdade crua é que maioria de nós teria compactuado com o sistema que todos nós hoje condenamos, fosse por conformismo ou por medo, sem questionar mais do que a regularidade das nossas refeições diárias. E isto porque a maioria de nós se acha apenas um zé-ninguém, sem importância, sem relevância numérica, e por isso prezando o conforto da segurança acima de tudo, achando que a sua revolta e miséria individuais não mudarão nada, e que por isso não vale a pena e mais vale ficar quietinho no conforto do lar, sem fazer ondas. Mas cada um de nós tem responsabilidade pelo que se passa à nossa volta e no mundo, e as maiores revoluções foram feita por conjuntos de zés-ninguém, que sozinhos não eram nada, mas que em conjunto, e em consciência, foram conseguindo mudar as suas realidades, como surpreendentemente se tem visto no Egipto e outros países árabes ultimamente. August Landmesser era um zé-ninguém, um zé-ninguém sem esperança de instaurar mudança, mas ainda assim um zé ninguém que hoje é um símbolo de inconformismo, integridade e resistência ao que se considera profundamente errado, com uma foto reproduzida mundialmente. Tal como todos nós podemos ser. Basta ter coragem para fazer sempre o que achamos certo, mesmo quando parecer que estamos sós.

19 comentários:

  1. É preciso ser muito corajoso para ficar de braços cruzados num momento como este! Muito pertinente esta escolha de imagem e respectivo comentário, parabéns!

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  2. Há uns anos contaram-me uma história de um imperador que decidiu que no dia seguinte todos os seus súbditos teriam que levar um copo de leite para encher a piscina. No entanto, no dia seguinte a piscina encontrava-se cheia de água como sempre. Quando perguntou porque o seu desejo não tinha sido cumprido,responderam-lhe que houve alguém que pensou que se levasse um copo de água não se iria notar, pois era pouca água no meio de tanto leite.
    O problema foi toda a gente pensar assim.
    podemos ser um só, mas fazemos sempre a diferença, nem que seja inspirar gerações seguintes e servir de referência.

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  3. Curioso, nada mudou mas agora não se dá o nome de Holocausto. Nunca fariamos tal coisa? LOL fazemos todos os dias.

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  4. Uma imagem que todos os dias deviamos ter em mente.

    Cadês
    Almofariza

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  5. Não há muito mais a acrescentar, é mesmo isso. Mas acima de tudo o que me toca neste post é perceber que sim, sem dúvida alguma, maioria de nós compactuaria com as barbaridades, desde que não nos atingisse directamente ou a alguém próximo. E com quantas barbaridades compactuaremos nós agora, embrenhados que estamos no nosso umbigo e na crença de que tudo o que não nos toca, não nos diz respeito?

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  6. Gostei do blog. Parece com a linha de pensamento do meu, vamos começar uma parceria. Obg.

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  7. É isso que me assusta. Como li algures há pouco tempo, o Holocausto não veio de um país qualquer sem instrucão, que não sabia melhor - muito pelo contrário. Como foi possível? Pergunto-me muitas vezes mas nunca encontro resposta satisfatória. Raca superior? Matar gente é muito nobre, não haja dúvida.
    Mas se os alemães de bem (que há gente de bem em todo o lado) se deixaram levar, infelizmente nós também deixaríamos. Só me ocorre essa grande frase de todos os tempos: Que Deus nos proteja.

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  8. Uau. Vai-me ficar gravada na memória, essa imagem.

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  9. muito verdade. cada um de nós tem potencial para mudar o mundo ou, no mínimo, para não se conformar com o rumo que o mesmo leva.

    a foto fez-me lembrar as minhas incursões na igreja, no seio de uma família religiosa, em que teimava em manter-me sentada, sem rezar, ajoelhar ou levantar-me nos momentos em que isso era devido (claro que não tem o impacto ou a importância contextual da foto acima, mas é representativo)

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  10. vou deixar só um pensamento, sabendo à partida que toda a gente me vai condenar. isto não serve para desculpar o holocausto, nem todas as mortes bárbaras nem todas as atrocidades que se cometeram. isto não é uma verdade, é apenas uma coisa que eu penso, não sei se real ou não, mas que me 'conforta' quando penso nisso tudo.
    o que eu acho é que quando tudo isto começou, as pessoas apoiavam o regime porque não tinham bem noção do que estava ou ia acontecer. o nazimo começou a ganhar adeptos e apoiantes porque provavelmente, no ínicio, o hitler não disse que ia matar milhões de judeus. se dissesse, provavelmente ninguém o teria apoiado. isto começou como começa qualquer outro movimento. só que depois foi tomando proporções drásticas e descambou no que já todos conhecemos. e aí se calhar já era tarde para as pessoas recuarem, porque já não havia muito a fazer. e também 'compreendo' de certa forma como foi ganhando apoiantes. temos de analisar as coisas no contexto em que acontecem, não aos olhos de hoje em dia. e naquela altura era 'moda' haver regimes de extrema direita por toda a europa (França, Espanha, Itália, Portugal), por isso eles limitaram-se a seguir as tendências.
    daí eu entender de certa forma como aquilo começou. não entendo é como depois acabou por se tornar num dos massacres mais cruéis de sempre na história da humanidade.

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  11. A Maat tem alguma razão, as coisas começaram devagarinho. O anti-semitismo sempre foi o tom dominante do nazismo, e teve uma grande aceitação porque na grande crise em que se afundou a Alemanha de Weimar, os judeus (na maioria comerciantes ou da área financeira) era o grupo populacional que parecia menos atingido (o que não é totalmente verdade, a inflação extrema também os deverá ter afectado, mas adiante). Ora em muitas épocas históricas os judeus foram vítimas em épocas de crise: até mesmo em Portugal medieval, os ataques às judiarias eram comuns.
    O plano inicial dois nazis era a expansão, primeiro para territórios que reclamavam como historicamente alemães, e depois por aí fora. E o degredo forçado dos judeus para um território que, salvo erro, se situava na sibéria ou mongólia, onde seria criado um estado judeu sob supervisão. Para tal primeiro reuniriam os judeus em campos, a fim de os isolar do resto da população. Claramente, isto falhou, e o extermínio foi a solução "fácil" para o "problema" judeu. Salvo erro, e apesar de ter havido mortes em massa antes, a "solução final" só foi assumida durante a guerra. E curiosamente, as câmaras de gás foram inventadas para poupar os SS e a Wermacht, cujos soldados começaram a sofrer um stress terrível (depresões e alcoolismo extremo) por causa das execuções em massa por pelotões. Primeiro foram os camiões (onde primeiro os doentes mentais e deficientes, depois os opositores do regime e judeus) eram enfiados, com tubos do escape para dentro, e eram mortos por monóxido de carbono. E depois as câmaras de gás, um método barato e com consequências psicológicas menos danosas para os SS (o exército regular, wermacht, foi afastado da solução final). Foi um processo, e isso é que é tenebroso: como se aceitou como desejável a morte em massa de determinado grupo, e se pôs em marcha um processo de a realizar de uma forma economicamente viável e segura.
    Assustador é saber que logo em 1933 Hitler e o partido nazi tomaram o cuidado de eliminar os opositores mais activos, calando e remetendo ao medo quem, como este homem, não levantava o braço. Assustador é saber que havia gente com sentido crítico para se perguntar porquê, e que por isso foram parar a Dachau. Assustador é saber que na multidão acéfala há quem não se pergunte porquê, que prefira embarcar e ver no que vai dar. Assustador, porque em todas as épocas históricas de crise isto acontece, e porque nessas épocas surge sempre alguém com ideias sobre eficiência e produtividade de uns, e dispensabilidade de outros que podem levar a isto. Assustador porque nós, os latinos, os meridionais, somos os novos dispensáveis.
    Se calhar sou alarmista, e espero estar enganada.

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  12. Izzie, não estava com coragem de puxar o assunto para aí, mas confesso que o "tom" com que falam nos últimos tempos me faz ocasionalmente pensar nisso. Parece tudo tão fácil, tão economicamente viável, logo que se livrem dos gregos e dos portugueses. Parece que a carroça começa logo a andar mal se livrem dos gastadores que têm tantos dias de férias por ano e trabalham tão pouco por dia.

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  13. Me mate, que é taradinho por este período histórico, anda há mais de um ano a fazer-me analogias entre os discursos de ódio que se ouvem por aí e os que apareceram na república de Weimar. E também diz outras coisas giras, como "isto está bom para aparecer aí um maluquinho de bigode ridículo" e "quando formos comprar pão com um carrinho de mão cheio de notas, estamos lá".
    Eu cá admito que sou um nadinha germanofóbica. Quando começam aos gritos em alemão, ponho-me logo a pensar em comprar um bilhete daqui para fora.

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  14. Este post está brilhante, parabéns!

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  15. Post muito bom!
    Infelizmente, já tivemos alguns exemplos de que nunca se pode "dizer nunca mais", até em termos históricos , com o risco constante da repetição de atrocidades que trazem ao cimo o pior do ser humano.
    Passadas escassas gerações, as consciências limpam-se e os "judeus" ou os "ciganos" apenas mudam de nome. Caso agora dos gregos, a seguir dos portugueses...
    A Humanidade não aprende! É uma tragédia. Julga-se sempre que as circunstâncias são diferentes mas apenaos os alvos da discriminação mudam.
    Ainda há poucos anos tivemos a guerra civil e racista na ex-Jugoslávia, quando pensávamos que a Europa era um continente impermeável às Guerras. :(
    E a nível social também temos os excluídos. É por aí que começa a indiferença ao Bem e o não sabermos destrinçar o recuo civilizacional: a gradual exclusão de idosos e doentes, por exemplo, só porque já não contribuem para o agora sacrossanto mundo laboral.
    Gosto deste blog.
    E parabéns atrasados pelo prémio do "Aventar", Luna. Foi através desse concurso que descobri este interessante diário.

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  16. Um conceito que sempre me assustou, mais ainda quando se falar em termos de economias mundiais, é o de competitividade, a possibilidade de crescimento aliada sempre à possibilidade de, competindo, se ser o melhor e assim se ganhar. Mas o que se faz com quem nunca ganha, por não ser competitivo o suficiente? Elimina-se? Deixa-se morrer à fome? De facto é o que acontece na selva, onde só os mais fortes sobrevivem, de onde bebem os modelos baseados na meritocracia. Mas será isso o que queremos para a nossa sociedade, para o nosso mundo?

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  17. Ganda texto, é mesmo por este caminho (o que propões) que há que começar.

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  18. Excelente post e excelente apelo à consciência de cada um.

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