27 de janeiro de 2014

Praxes for dummies

Parafraseando a minha amiga Pólo Norte, as pessoas dividem-se entre as que são de grupos, e as que não. E eu pertenço ao último tipo, mas sabendo que é uma (muito pequena) minoria.

Eu  nunca fui de grupos. Sempre fui uma individualista, ao ponto de a certa altura na minha adolescência ponderar ir para os escuteiros, por causa daquela cena de acampar e tal que na altura me parecia fixe - I changed my mind about that meanwhile - mas já na altura acabei por desistir da ideia pela cena de ter de pertencer a um grupo e aquilo do pensamento colectivo me fazer confusão, mesmo quando era nova demais para saber o que me deveria fazer confusão.

Isto para dizer que eu nunca seria a pessoa para ser praxada. Quer dizer, pelo menos para ser praxada a sério.

Poderia dizer que nunca fui praxada, que não me deixei ser praxada, não fosse por ter deixado que me escrevessem a sigla do curso na testa no primeiro dia, depois de, ao ter entrado no Técnico, ter visto a pauta com o número de "gajas" na turma escrito em gigante a vermelho lá na margem. Ok,that's something I could live with.

O IST não era uma universidade que favorecesse as praxes - pelo menos no meu tempo. Quando os caloiros começavam as aulas, já o resto dos anos tinham começado a sério há que tempos, no início de Setembro, e não tinham tempo para macacadas. E ainda bem. Tive uma aula de praxe, em que um aluno, com conivência do professor, fingia ser professor assistente da cadeira e dizia uma série de barbaridades, até percebermos que era a gozar. And that's all folks. Depois houve um rally das tascas e pronto.

Mais tarde vim a saber que esta minha experiência super soft não era propriamente o comum, e que havia gente a ter praxes a sério, que eu nunca na vida aceitaria. Cenas verdadeiramente humilhantes, com excrementos de animais à mistura em certos casos, ou simulações sexuais e afins. Coisas que eu tenho a certeza com que não pactuaria e recusaria terminantemente sem qualquer medo de depois não vir a ser amiga daquelas pessoas. For god's sake: eu não quereria ser amiga daquelas pessoas! Eu não poderia nunca ser amiga nem compactuar com pessoas que me tivessem humilhado e maculado a minha dignidade enquando pessoa daquela forma!

Anos e anos mais tarde vim a saber de outras "tradições" igualmente fofinhas, como a tradição do rasganço em Coimbra e ia ficando doente com a descrição e aceitação de prática tão horrenda, em que as roupas do recém graduado eram rasgadas até ficar (quase) nu em público, para depois desfilar na cidade.What?! Eu ouvi bem? Mas é a tradição e pela tradição pode-se abdicar da dignidade um dia e ser despido publicamente por ela. NOT.

Ah mas é giro. E com gente fixe. A sério? Giro para quem? Com gente fixe para quem? A sério, giro mesmo para quem? Nunca recebi resposta convincente a esta pergunta.

Volto ao início. As pessoas ou são de grupos ou não. A maioria são. E por serem, a maioria faz quase tudo o possível e imaginário para pertencer ao grupo, porque o grupo é fixe. E se nesse processo tiver de abdicar de alguma dignidade, so be it. O que interessa é pertencer. É sentir-se parte de. É tudo por uma causa. E como tal as praxes fazem parte do processo de recrutamento. Quem é besuntado com merda hoje besuntará amanhã, e tudo fará sentido num mundo ordeiro em que as coisas são como são e permanecem assim. Os que entram hoje continuarão amanhã e assim continua. E as praxes fazem isso. São o passaporte para um grupo de acesso limitado para uma antiguidade selecta de que só os melhores fazem parte. Excepto que geralmente são os piores.

Anyway, o que aconteceu no Meco foi uma tragédia. Não foi uma praxe, aquilo não estava planeado, aquilo foi simplesmemente uma tragédia. Uma tragédia em que se persegue o único sobrevivente, castigando-o por ter sobrevivido. Em que não ter morrido se torna razão para perseguição. Aquela pessoa jamais será a mesma no resto da sua vida. Já não o seria pelo que viveu, mas ainda menos pela pressão social. Já basta o que ele viu, já basta o que ele viveu, castigá-lo publicamente por não ter morrido é tão ou pior em crueldade do que qualquer praxe.

Querem falar sobre praxes? Querem limitar as humilhações que os nossos miúdos sofrem todos os dias em nome da tradição? Sim, acho bem. Mas através de um bode espiatório de um puto traumatizado para a vida, que neste momento nem deve saber bem o que lhes aconteceu, ou que tinha a ver com praxes? Fuck you!

65 comentários:

  1. Bom, eu não sou de grupos, mas fui praxada, e duas vezes, tantas quantas as uni em que entrei naquele ano - sucessivamente. Fui, mas obrigada, naquele tempo não havia cá recusas. E posso dizer-te que nos idos de 1989 o IST era dos sítios com praxe mais violenta, e coitadas das pobres raparigas que lá entravam. Fazia parte da praxe escolher uns quantos para os atirar à piscina. De lá de cima: se já viste a piscina do técnico, sabes que aquilo é coisa que pode matar alguém.
    Para além de achar que é uma estupidez, e que as unis facilitam e fecham os olhos, e etc, de facto anda-se atrás do sobrevivente como se fosse culpado de tudo. Como dux, assumo que é o totó mor, mas não obrigou ninguém a entrar dentro de água, né. As pessoas são adultas e tomam as suas decisões, e nem estamos a falar de caloiros coagidos. Os tugas precisam muito de culpados, de casar a culpa, em vez de olhar o problema de frente e resolver o fundo da questão. Um tédio.
    (andam a escarrapachar a cara do fulano em tudo o que é jornal e revista, acho mal)

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    1. Tenho ideia que entretanto por causa de um caso mais grave, o Técnico colocou alguns entraves nas praxes. Não sei em que é que isso se traduziu na prática, ou como é que garantem que a coisa não sai fora dos eixos.

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    2. Izzie, acredito que assim fosse, mas de facto no meu tempo as coisas eram bem diferentes, com a praxe quase inexistente, pelo menos no meu departamento (química).

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    3. Eu entrei no IST em 91, e já as praxes já estavam condicionadas. A história da piscina terminou com a morte de um caloiro, pelo menos era a história que corria quando lá andei. De qualquer forma, minha praxe foi semelhante à que a Luna descreveu.

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  2. Subscrevo totalmente. Não nos podemos esquecer de uma coisa que fundamenta a nossa humanidade: a escolha, poder dizer não.

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  3. Concordo contigo na totalidade!


    nadinhadeimportante.blogspot.pt

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  4. Sou de Coimbra e estudei em Coimbra. Obviamente, como toda a gente com um mínimo de decência sou totalmente contra praxe enquanto ritual de humilhação... Não percebo mesmo e não é de todo o conceito de praxe que vivi! Basicamente a praxe que vivi, e a única que conheço de perto de Coimbra, é beber copos, fazer uns jogos e rir (nunca me escreveram nada na cara sequer!). Tanto que não havia aulas nos dias de praxe e nós íamos todas para a Alta da cidade para encontrarmos as Madrinhas e sermos praxadas. Era divertido, por isso queríamos ir. Sei de histórias de praxes más em Coimbra, mas não conheço nenhum caso directo. Tenho-me apercebido que noutras Universidades a coisa não é de todo igual... Especialmente porque parecem descrever o fenómeno como "ou entras e cumpres com tudo ou és anti-praxe". A minha experiência não é de todo essa. Cumpria com a tradição quem queria.. Eu nunca fiz rasganço porque não quis (também não vejo mal nenhum, as pessoas não ficam nuas, é apenas uma cerimónia em que se rasga o traje como símbolo do fim, porque não se vai precisar mais dele). Assim como conheço gente que trajou mas não foi a um único dia de praxe! A praxe em Coimbra para mim é super flexível, não tem mal nenhum e resulta na perfeição. Não é de todo o que tenho visto descrito pela net fora, e se é um fenómeno que descambou em abusos a explicação é sempre a mesma: há pessoas que gostam de humilhar outros e usam do que podem para o fazer.

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  5. As minhas praxes não foram violentas, humilhantes nem sequer obrigatórias. Mas das muitas histórias que ouvi, não sei se será justo dizer que só vai às praxes quem é de grupos, porque há sítios em que implícita ou explicitamente, se dá a entender que quem não é praxado sofrerá consequências. E concordo com o teu ultimo ponto, este rapaz está a servir de bode expiatório para uma coisa da qual nunca ninguém parece estar disposto a falar, a não ser quando ocorre uma tragédia, que até podia ter acontecido se fossem para lá beber copos.

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  6. Eu tirei o meu curso na cidade onde vivo e entrei com 22 anos. Logo, o meu objectivo era fazer os 5 anos, o mais rápido possível. Não foi às praxes, detesto, não tenho paciência e não acho piada. Passado uma semana apareci na escola e queria obrigar-me a participar no desfile. Eu disse que não ia e não fui."Ah e tal, vais ter dificuldade em conhecer pessoas e fazer amigos se não fores". "Eu não estou cá para fazer amigos, estou cá para tirar o curso". Passados uns dias já conhecia quase toda a gente do meu curso.
    Nunca tive problemas em conhecer pessoas porque sou extrovertida. Agora praxes? Faz quem quer. Era o que faltava!

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Concordo plenamente com o que escreves. A praxe académica na Universidade de Coimbra é como a Ana descreve. Fui "praxada", sem nunca ter sentido humilhada. Brincadeiras, copos, umas canções com letras mais ou menos (in)decentes, mas nunca passou disso (o código da praxe, no meu tempo, pelo menos, impedia o recurso a pinturas na cara/corpo e todo o tipo de actuvidades que sujasse ou colocasse em causa a integridade física dos envolvidos). Sendo que a tradição da praxe académica tem, efectivamente, as suas origens em Coimbra, lamento muito que se chame "praxe académica" a algo que, a meu ver, não o é. Esclarecendo só a questão do rasganço, não sei como te foi transmitido o conceito, mas não passa de um convívio, organizado pela pessoa que terminou o curso e que convoca os amigos para lhe ser rasgado o traje, de sua livre e espontânea vontade. Passei essa à frente, como muitas outras pessoas o fazem, mas participei em alguns e não tomo a "comemoração" como ofensiva.

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    1. Ouvi da boca de alguém que fez o curso em Coimbra descrever o rasganço tal e qual a Luna o descreve. Tratava-se de uma cerimónia (ugh!) exclusivamente feminina ou masculina, ou seja, quando as caloiras faziam o desfile nuas, por uma escadaria cujo nome não decorei, só podiam assistir veteranas. Sucede que às vezes havia mirones, e contaram-me que um ano uma caloira, ao perceber que estava a ser observada por gajos, ficou em estado de choque. É uma prática abjecta. E a praxe em Coimbra tem um grande factor de coacção, visto que é uma cidade de estudantes que, na maioria, vêm de fora, e sentem que só participando criam ligações com o resto da estudantada. Cá em Lisboa um gajo apanhava o autocarro e ia para casa, lá não.

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    2. O quê? Caloiras nuas em Coimbra? LOL Em 5 anos de curso e 23 anos de vida na cidade nunca tal coisa vi. O "rasganço" é uma festa que os recém-licenciados fazem SE QUISEREM (eu não fiz, por exemplo, mas fui a muitos, muito divertidos, sobretudo para a estrela, o recém-licenciado), convidam as famílias (sim, sim, os pais e os avós estão lá a ver, vejam c'orror ó lisboetas ignorantes!), os amigos, levam bebida (normalmente grandes baldes de sangria, feitos de véspera, em casa, com todos os amigos a ajudar - muita frutinha cortei - e logo aí é uma pré-festa...) e, quando é altura, os amigos (ou amigas, se for de uma rapariga só as amigas "rasgam") rasgam o traje académico (que já levou uns cortes antes, para evitar que seja doloroso a puxar), é um símbolo de fim de curso e, repito, VOLUNTÁRIO! Depois a tradição é o "rasgado" andar atrás da capa (única peça que fica), que os amigos atiram de uns para os outros, depois apanha-a, os amigos (esses vilões que rasgaram) embrulham o recém-licenciado na capa, há beijos e abraços, há lágrimas de saudade de um tempo que não volta e que foi lindo, associado a juventude, companheirismo, amizade daquela incondicional como só se vive nesses momentos, memórias que ficam para sempre. Depois todos vão jantar e celebrar. É assim o rasganço e é assim a praxe em Coimbra - sem humilhações, com muita camaradagem e com muita alegria. Não se esqueçam que a UC não é um politécnico qualquer de Lisboa, ou uma privada, onde se cometem muitos abusos, verdade e isso é um nojo. Há que separar o trigo no joio e meter tudo no mesmo saco é, no mínimo, pouco inteligente.

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    3. Como disse sou de Coimbra. Assisti a muitos de rasganços ao longo dos anos e nunca ouvi falar de um nesses termos. Nunca vi uma mulher ficar completamente nua. Pelo contrário, rasga-se a roupa de maneira a ficar com o que interessa tapado (isto é, fica-se com um pouco de camisa e um pouco de saia). Já vi homens a ficar nus, mas sinceramente foi porque quiseram... Vai imensa gente ao rasganço, não é só de mulheres ou homens. Tanto, que se convida os pais e amigos de pais para irem. Há bebida, comida, comemora-se o final do curso. É isto. Se há abusos em rasganços? Pois haverá, como há em festas de aniversários de miúdos em que o típico amigo estúpido que insiste que o aniversariante tem que beijar o bolo. Mas a minha experiência é que isso não é de todo o normal em Coimbra. Como disse eu não me rasguei porque não quis. E as minhas amigas o mesmo. Não me apeteceu. Simplesmente isso. Não acho que exista coacção de que falam, e a existir há a noção que não é da praxe, é de ser simplesmente estúpido. Mas repito, isto é a minha experiência e de Coimbra, tenho ouvido relatos diferentes, de outras zonas. Aquilo que vejo descrito não é de todo o que acho que é praxe. E custa-me ver coisas absurdas e rituais estúpidos associados a uma coisa que para mim foi divertido: os tempos de caloira e estudante.

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    4. Já ouvi descrições do rasganço bem soft, mas creio ter visto há tempos umas fotos de rasganços antigas (creio que no Malomil) com rapazes literalmente em pêlo.

      Anyway, a ideia de rasgar a roupa do corpo de alguém com ela vestida parece-me uma selvajaria indescritivel e a ideia é absolutamente abominável para mim.

      https://www.google.pt/search?q=rasgan%C3%A7o&espv=210&es_sm=122&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=olLmUrOHFKe_0QXR5IDwCw&ved=0CCwQsAQ&biw=1366&bih=643

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    5. Curiosamente, na tal descrição extremamente soft do rasganço, a minha amiga acrescentou que decidiu levar bikini por baixo. (hummm, estranho, para quê, se ia ficar toda vestidinha?)

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    6. Izzie, não responderia melhor do que a S. O rasganço dos alunos da UC é exactamente o que é descrito por ela. E sim, nos que tive houve pais, tios e avós. Não percebo de onde vem essa "prática abjecta" que descreves. Nunca vi/ouvi falar em tal coisa. Caloiras a desfilarem nuas? Quem faz o rasganço são alunos finalistas. Os caloiros nem sequer trajam. Desfiles na Escadaria Monumental? Nunca tal ouvi falar. Os rasganços decorrem junto à Porta Férrea, a "entrada" da UC. Sim, o rasganço propriamente dito é feito só pelos colegas do mesmo sexo, mas toda a festa decorre entre amigos e família. Quanto ao factor de coacção, no que a mim diz respeito, nunca senti tal coisa. Não falo por outros, mas sempre me senti respeitada.

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    7. S, um grande LOL para si também. Sucede que eu entrei na universidade há 25 anos (cota, lol), e quem me contou isto foi uma pessoa que tem mais 3 ou 4 anos que eu, já era quartanista quando eu entrei. Donde, lol, e considerando que ela me contou que essa 'cerimónia' teve problemas sérios depois de essa caloira ter ficado em choque e ter sido levada de charola para o hospital, se calhar, lol, proibiram a coisa. Como também proibiram os atiranços de pessoas para um lago numa outra faculdade de Lisboa quando um tipo ficou paraplégico. Como proibiram o corredor da morte na católica (passei por isso, fartei-me de apanhar) quando um caloiro caiu e partiu o nariz e foi de charola para as urgências. Em 1989/90 era tudo abafado, os corpos directivos eram coniventes. Felizmente agora já se fala das coisas, e não confundam as realidades. Semanas de recepção ao caloiro é uma coisa, festarola é muito giro, mas a praxe tem sempre implícito um conceito de dominação. Não acho normal, nem aceitável. É macacoide, é sub-humano, é estúpido, é bullying.

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    8. Oh Izzie, quem lhe contou isso contou mal ou a Izzie percebeu mal, pelo simples facto de nada ter a ver com um rasganço, que as caloiras não se rasgam, mas sim os finalistas! Caloiras a desfilarem nuas foi coisa que nunca vi nem ouvi falar e olhe que sou de Coimbra, sempre lá vivi e toda a minha família lá estudou, portanto acho que saberia de abusos caso acontecessem. A verdade é que nunca presenciei nem ouvi falar de abusos na praxe da UC - mas quem fala de politécnicos e privadas já é outra história! Há praxes, por exemplo, na escola agrária de Coimbra (fora da UC) que são de bradar aos céus e sempre se falou nisso. Mas depois lá está, só as passa quem quer e quem não quer tem SEMPRE a liberdade de ser deixado em paz ao declarar-se antipraxe. As pessoas andam todas histéricas com as praxes por causa do triste (incrivelmente triste) acontecimento do Meco (quando nem sequer se sabe o que lá aconteceu, mas enfim...), mas, como já disse, há que separar o trigo do joio e não comparar coisas estúpidas com algo bonito e, repito, imensamente alegre e repleto de bons sentimentos, como a praxe em Coimbra, que, acredite, não se trata DE TODO de bullying (já que o bullying implica ser contra vontade da vítima). Luna, ainda quanto aos rasganços, repito - é uma festa que se faz A PEDIDO do finalista e APENAS se ele a quiser :) portanto, para si é uma selvajaria, para mim foi desnecessário (não o fiz e ninguém me condenou por isso), para outros será altamente divertido. Também acha que o BDSM devia ser condenado por ser uma selvajaria ou aqui já cada um sabe de si? Não devemos respeitar a liberdade de cada um? Se X quer que os amigos lhe rasguem o traje académico e anseia pelo momento em que correrá em pelota atrás da capa, que temos nós a ver com isso quando é uma decisão voluntária, tomada por um(a) maior de idade e aliás uma festa que implica por parte do visado grande expectativa e orgulho. Só digo, não falem do que não sabem.

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    9. Para existir vontade livremente determinada têm de se reunir condições que, nestes casos, não existem. Há coacção, peer pressure, há achincalhamento de quem não alinha, e isto é bullying sim senhora. S., existe praxe violenta e ultrajante em Coimbra, e folgo em saber que a sua família não tomou conhecimento da mesma, mas isso não faz que não exista. E se estivermos todos a olhar para o lado, ou se tivermos a amplitude que a S. demonstra em relação ao conceito de livre vontade, é muito fácil acreditar nisso.
      E a rapaziada no Meco, trata-se de uma situação diferente. Eram todos veteranos, pertenciam ao conselho de praxe, portanto aí há uma submissão de tipo diferente de um caloiro, que caiu ali de pára-quedas, vindo de um liceu onde não havia disto, e que desconhece as regras, se sente observado, intimidado, só, e pressionado.
      Porra, de uma vez por todas: EU FUI PRAXADA, FUI OBJECTO DE ACTOS DE VIOLÊNCIA E HUMILHAÇÃO, E NÃO ME SUBMETI VOLUNTARIAMENTE, FUI COAGIDA, ATÉ SOB A AMEAÇA DE VIOLÊNCIA FÍSICA, PORQUE FOMOS TODOS PRESOS - A PALAVRA CERTA É SEQUESTRADOS - NUM ANFITEATRO, COM A CONIVÊNCIA DO CORPO DOCENTE E DIRECTIVO, E SÓ SAÍA QUEM ELES DEIXAVAM. E na católica, quando nos deixaram ir para a rua, já nos tinham tirado um sapato a cada um, era inverno, estava de chuva, e não ia voltar a casa, a quilómetros dali, descalça. Foda-se, que só aos gritos. Entendido?

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    10. Izzie, lamento verdadeiramente que tenha sido essa a sua experiência. Acredite. Ainda hoje falava, ao almoço, com uma colega que estudou na católica e tem uma experiência muito diferente da sua. As praxes violentas e ultrajantes devem ser sempre proibidas, censuradas, perseguidas. Portanto, estamos de acordo. Eu não demonstro amplitude relativamente ao conceito de livre vontade, apenas descrevo o que vi(vi). E olhe, ninguém no mundo odeia bullies mais do que eu :)

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    11. Compreenda uma coisa, S., para alguém que foi vítima deste tipo de comportamentos de alunos mais velhos, e nem foram dos piores, que já vi e ouvi coisas que jasus, chegar alguém a explicar que tudo é muito giro, que há quem abuse mas pronto, é tradição, é bestial, e que só se submete quem quer, é um continuar e justificar da violência, que ofende, oprime e magoa.
      Você, se usou da sua senioridade para andar com um rebanhito de caloiros atrás de si, a mandá-los fazer e desfazer, e lhes chamou nomes, é uma bully. Esse remate final é digno de uma pessoa que conta uma anedota racista e depois explica que até tem amigos pretos.

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    12. Olhe Izzie, agora foi ofensiva e desnecessária. Já retiro o que disse quanto à inteligência, porque quem tem que recorrer ao insulto numa troca de ideias é uma pessoa pouco inteligente, que não sabe fazer valer os seus argumentos. E não, nunca usei da minha senioridade para andar com um rebanhito (aliás, não me refiro a pessoas como animais) de caloiros atrás de mim, não mandei fazer nem desfazer (porque não mando em ninguém, só hei-de mandar nos meus filhos e, e...) e NUNCA NUNCA NUNCA chamei nomes a quem quer que fosse. Que os meus paizinhos deram-me educação e ensinaram-me o respeito, thank you very much. Não está a falar da mesma coisa que eu quando fala de praxe. Fiquemos por aí.

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    13. Obviamente, S., passou-lhe ao lado o essencial: o que para si é inofensivo pode não ser para outros, chamei-lhe a atenção para a sua falta de sensibilidade e a resposta foi de sete pedras na mão. Passar bem, e quanto à inteligência ou falta dela, não é por aqui que se pode deduzir, e o achar que eu a tenha ou não é-me absolutamente indiferente.

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    14. Olhe, também a mim. Não me passou nada ao lado, muito menos o essencial. E se há alguém que tenha sensibilidade para questões de bullying, repito-lhe, por coisas que são cá minhas e não vou nem quero expor, sou eu. E repito-lhe, a praxe como a conheço é OBJECTIVAMENTE inofensiva. Para qualquer pessoa, não é só para mim. Acho que à Izzie é que está a escapar o essencial: é que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. E a outra coisa, essa de que falam, que implica nomes, castigos, sofrimento, é má e deve ser proibida, obviamente. E não é praxe. É imbecilidade. Por isso, como falhou completamente o alvo ao tomar-me por uma pessoa insensível, tive que esclarecer que, naturalmente, não é esse o caso. Não há aqui "bons" e "maus". Há gente com bom senso, outra que não o tem.

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  9. Olha que giras estas raparigas totalmente vestidas nas imagens do google:

    http://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B6b12cf0c/13723132_zWoAo.jpeg

    http://lh4.ggpht.com/-PzsVBuvpS-8/ROscSdI_ABI/AAAAAAAABHs/vgKXjHutgFw/rasgan%2525C3%2525A7o%252520%25252868%252529.JPG

    http://photos1.blogger.com/hello/10/9241/1024/Rasgano.jpg

    http://1.bp.blogspot.com/_ylRoS9Se3wI/RaOD4iGlBYI/AAAAAAAAAEg/7x82cjnhCOc/s400/as%2B2%2Brasgadas.JPG

    http://photos1.blogger.com/blogger/3877/1979/1600/DSC04297.jpg

    http://photos1.blogger.com/blogger/4748/1994/1600/DSC07819.jpg

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    1. Mas se é por vontade e a pedido delas, o que temos nós com isso, Luna? Bem, os argumentos que valem para se defender a liberdade no que respeita a uma data de temas fracturantes, como já a vi defender (e eu também defendo) já não servem para se dar liberdade a cada um se quiser andar seminu pela rua sem fazer mal a ninguém? :) Sejamos coerentes, por favor. É que choca-me particularmente trazerem o rasganço como exemplo, já que nem é um fenómeno grupal (como a praxe nas semanas de recepção ao caloiro em que, eventualmente, poderá haver um ou outro idiota a esticar a corda - e isso deve ser SEMPRE travado e censurado), mas uma festa marcada pelo visado, individualmente, a pedido, DE LIVRE VONTADE! Chiça.

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    2. S., se der um royphnol a uma garota, ela também tem sexo de livre vontade com um, dois ou dez. E no meio do torpor até se pode imaginar que está a gostar.

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    3. Izzie, vou ignorar esta sua comparação, que é um insulto à sua (que já percebi que tem) e à minha inteligência. Então os caloiros são equivalentes a miúdas drogadas nesta equação, é? Vá...bom senso.

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    4. Sim, porque embebedar caloiros até ficarem a cair e a vomitarem-se pelos cantos, nunca se viu.
      A sério.

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    5. hahahaha sim, É ISSO MESMO, a mim olhe enfiaram-me um funil na garganta como se fosse um ganso para foie gras e zás, toca de enfiar bagaço por ali abaixo até já não me aguentar em pé! Ah, e como sou uma maluquinha déspota falhada, macacóide e imbecil sem cérebro, ÓBVIO que fiz o mesmo a todos os caloiros que apanhei nos anos seguintes, ai Izzie, nenhum me escapava!!! hehehe bem, vou-me embora porque esta discussão é estéril e eu, apesar de todos os problemas mentais de que obviamente padeço, tenho que trabalhar.

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    6. Filha, o que se passou consigo é-me indiferente. Mas já vi fazerem, pressionar caloiros a emborcar penalties atrás de penalties, e parece que era muito divertido. Ou também vai dizer que estou a imaginar tudo? Só porque não se passou consigo, não aconteceu? E ainda se gaba de bom senso?

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    7. Agora é que disse tudo: o que se passou comigo a si é-lhe indiferente, porque só a sua opinião é válida e os outros são uns imbecis que nada sabem da vida! I rest my case.

      E para que conste, eu nunca disse que "imaginou" nada. Só disse que aquela história que contou de andarem miúdas nuas nas escadas monumentais veio de outros olhos, não dos seus e os boatos nascem assim. É preciso ter cuidado com isso, com o contar uma história como se fosse connosco e depois não é, é com o amigo de uma amiga de um amigo. Não digo que a história seja mentira (e a ser verdade é uma imbecilidade pegada, a punir, como já tanto frisei), mas prefiro relatos na primeira pessoa, é só.

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    8. Além do mais, a história está mal contada - o que têm caloiras a ver com rasganços? Os rasganços são de dia, não de noite, e, como são num espaço público, qualquer pessoa pode ver, o que é de pleno conhecimento do próprio...também não são nas escadas monumentais...enfim, é uma história em que não bate a bota com a perdigota e por isso faz-me duvidar da sua veracidade ou, pelo menos, que se tenha passado como a contam. Mas, a ter-se tratado de uma praxe em que obrigaram caloiras a despir-se, é não só um nojo, como crime e, repito pela enésima vez, deve ser proibido e punido.

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    9. S., não me atribua palavras ou intenções que não existem. Se a menina não coage ninguém a embriagar-se, melhor, mas isso não significa que não aconteça. Apre! Se conto algo a que assisti, eu e muitos, e a menina nega fazendo chacota, está a invalidar um testemunho com base na sua experiência pessoal que, para o caso, é indiferente. Acontece, e isso é que é triste. E quem me contou o demais viu, e é pessoa com palavra na qual confio.

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  10. Ponto fulcral da questão: elas estão assim de livre e espontânea vontade. Toooda a gente que passa por Coimbra sabe que fica assim no fim do rasganço. Outro ponto não menos importante: Nunca, jamais, soube de alguém que se sentisse coagido por não o fazer: Eu não fiz, pelos vistos a Ana e a S também não, e creio que tal como eu, nenhuma delas se sentiu pressionada a fazê-lo. Ponto mais ou menos irrelevante: nenhuma das pessoas das fotos que mostras me parece estar com um ar infeliz. Há mesmo necessidade de empolar isto a propósito daquilo a que chamam "praxe" e que deu no que deu?

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  11. Luna acho que podíamos estar aqui a tarde toda a discutir isto. No Carnaval também não há quem se mascare e quem opte para aproveitar e ir de qualquer-profissão em versão ordinária?
    Eu conheço quem tenha ido de fio dental para o rasganço e pedido para rasgar mais a saia...
    Quem vai de meias de ligas e sabe que a saia vai ficar mais curta é porque quer que se veja que está de meias de ligas!
    Assim como há miúdas que vão para a noite de decotes até ao umbigo ou saias que sobem até às cuecas e outras que não. É isto.
    Da minha experiência o rasganço é uma festa como outra qualquer. Se há mulheres que ficam despidas e com ar reles é porque querem. Vamos proibir a casa dos segredos também porque elas são umas porcalhotas?
    No rasganço e na praxe como a conheço não vejo mal nenhum. Repito, como a conheço. Aquilo que andam a descrever não é praxe, é estupidez. E não acho que quem vá a rasganços, quem adira à praxe (no meu conceito, entenda-se), quem tenha tertúlias e traje não são os déspotas falhados e frustrados que toda a gente agora descreve e conhece!

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  12. Chego à conclusão que eu e a Izzie deveremos ter amigos com uma imaginação delirante e que as coisas que nos contaram serem comuns nunca acontecerem, ninguém viu, não existem.

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  13. Não, essas coisas existem, mas são sentidas de forma diferente. Vocês, pelos istos, têm uma sensibilidade que passa pelo uso de palavras como "decência" e "ultraje", quando o que se usa agora é uma pessoa gostar que lhe chamem "besta", que a ponham a cantar canções imbecis e a fazer figuras tristes em jogos de poder e submissão. Diz que é muito divertido.

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  14. Bem, eu também tenho uma imaginação delirante, porque basta andar na rua (eu sou do Porto) para achar que vi cenas degradantes. Muito degradantes! Acredito que os caloiros que se prestam ao que eu já vi (ou imaginei, pronto) o façam de "livre vontade", espontânea não! Onde eu tirei a minha licenciatura não havia praxe, passados uns anos sei que passou a haver mas não sei como era (é). Mas na generalidade parecem-me haver acidentes a mais ligados a esta tradição. A gente já sabe que se um filho vai para a estrada está a correr um risco, mas para o ensino superior? Que diabo!

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    1. Unknown, no Porto é consabido que há abusos nas praxes. O meu marido estudou lá e sabe o que fez, e muito bem, quando o quiseram praxar de forma abusiva? Declarou-se antipraxe. Assunto resolvido, nunca mais ninguém o chateou. Se há abusos, que há, devem ser denunciados na polícia porque a ofensa à integridade física ainda era crime da última vez que vi. E devem ser censurados e falados e travados e proibidos. Agora proibir a praxe, como instituição? Parece-me estúpido, primeiro porque não vai ter efeito nenhum (a sério, já conheceram os estudantes? acham que eles vão deixar de fazer semanas de recepção aos caloiros e rasganços e queimas das fitas e latadas e tribunais de praxe - já fiz, foi hilariante, não houve nenhum abuso - óbvio -, nem tocámos nas meninas, hoje TODAS minhas amigas e com uma história engraçada para contar - a pena era beberem uns copos, o que elas nem queriam nem nada...veja lá o drama!) e depois porque é irracional, por causa de um infeliz acontecimento ir proibir uma coisa que é, na verdade, bem intencionada e divertida.

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  15. Nestes termos, efectivamente, não adianta debater o que quer que seja. Pelos vistos o conhecimento de causa não é relevante. É uma pena que aquilo que é uma tradição instituida na Universidade de Coimbra, vivida inclusivamente pela geração de pais e avós, esteja a ser deturpada noutras instituições que decidiram chamar "praxe académica" a selvajaria. As práticas mudam, e há gente imbecil em todo o lado, mas não generalizem e não deturpem uma realidade que em nada corresponde a este tipo de "tradições".

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    1. Deixe lá GM, as pessoas quando não querem perceber não vale a pena. Mas sabe tão bem como eu que mesmo que proíbam a praxe (seja lá o que isso for, porque parece que cada um tem o seu conceito), o espírito coimbrão não morre nunca, não é? :) "quem te não viu anda cego, quem te não ama não vive"

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    2. Sem dúvida! E nunca pensei que fosse tão complicado entender (e fazer entender) que "praxe", para nós que passámos por cá (Coimbra), não tem qualquer carga negativa, bem pelo contrário.

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  16. Eu não me recordo de ter dito que essas descrições não eram verdade ou eram delírio. Aliás, penso que comecei por dizer que tenho visto descrições que não coincidem com o que vivi! Não acho que sejam mentira, até acho que são uma verdade preocupante. Aquilo que eu disse é que a minha experiência não é essa de todo. Não falei da experiência do João, da Maria ou da Joana. Falei da minha. Não ouvi, vivi. E baseada na minha experiência, eu entendo que o problema não é a praxe, é transformação dela... Eu não me humilhei na rua, eu não despi camisolas, eu não tive nada escrito na cara, a mim ninguém me chamou besta. Não estou a dizer que isso não aconteça. Só disse que não é essa a realidade que conheço. Não tenho interesse nenhum na ilegalização ou não da praxe. Não tenho interesse nenhum sequer num resultado prático desta discussão. Só vim trazer a minha experiência, para mostrar que a realidade não é só que tenho visto nos jornais. Espero que se combatam os abusos e que ninguém passe por experiências desagradáveis. Mas espero que a praxe não seja proibida, porque a que eu conheço é divertida. E desculpem, mas uns podem não achar piada a músicas parvas e jantares de faculdade, mas isso já entra no domínio do gosto, e cada um faz o que quer. Eu diverti-me sim, e não havia jogos nenhuns de submissão! Se é muito intelectual da minha pessoa divertir-me a beber copos e cantar músicas? Pode não ser, mas acho que não há nada de mal ou reprovável nisso. E é voluntário, não fui obrigada ou de qualquer forma coagida a gostar disso.
    Só quis mostrar que há outro lado. Eu sei que infelizmente há outro lado diferente do que eu vivi, e não o ignoro.
    Mas acho é que não podemos cair no excesso de proibição. Continuamos a ter milhares de acidentes de carro por condução alcoólica. Vamos proibir de vez a venda de álcool? Eu acho que não. Infelizmente temos que entregar certa parte da regulação da vida a cada um, é a minha opinião. Não estou a dizer que quem acha o contrário deve ter uma sensibilidade especial... Estava só a contribuir para uma discussão saudável com minha perspectiva diferente, nada mais.

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    1. É isso tudo, Ana. Infelizmente o bom senso é uma coisa que não se ensina, ou se tem ou não se tem.

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  17. Não acrescentando nada de novo à discussão, venho só dizer que também já assisti a rasganços há 7 ou 8 anos em Coimbra e os rasganços não são praxe, são como disseram as comentadoras ex-estudantes da UC organizadas pelo próprio finalista. Este convida quem quer para assistir/participar (família, avós incluidos num dos que tive oportunidade de assistir, amigos, colegas). Há convívio antes do rasganço propriamente dito, com direito a comes e bebes, e depois, em poucos minutos, rasga-se o traje do estudante finalista (porque efectivamente não vai precisar mais dele). Penso que é uma situação bastante diferente da da praxe (onde os caloiros, sim, são coagidos a fazer coisas que podem não querer fazer). Podem achar que é uma tradição parva, ok. Mas de facto só faz quem quer, e eu do que presenciei não achei por um momento que aquilo fosse "carneirismo" nem falta de decência. Já na praxe, sim, há muitos abusos e muita falta de pensar pela própria cabeça.

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  18. A praxe da UC definitivamente não tem nada a ver com o que se descreve das maiorias das praxes. A humilhação, a utilização de caloiros, até o pintar e sujar e afins são, inclusivé, expressamente proibidos pelo código da praxe. Ou seja, se acontecem o problema não é da praxe, que os repudia, mas sim dos imbecis que têm as infelizes ideias. Mas até da UC para os politécnicos da cidade há uma grande diferença, como as que eu-não-consigo-compreender-mas-eles-dizem-que-gostam-muito praxes de bosta na agrária (e atenção, quem diz que gosta não são os caloiros, esses eu podia considerar que estavam sob a influência do momento: são mesmo a malta mais velha que já acabou o seu cursinho e já tem idade para ter juízo, estão a trabalhar e têm uma vida e tal e dizem, de por lá ter passado, que foi uma experiência muito boa e repetiam se pudessem e tal. Aceito, mas juro que não percebo, não sei se o problema é deles ou meu.)

    Lá por ela ter os contornos do que deveria ser a praxe em todo o lado, é óbvio que em Coimbra também se cometem excessos. Mas enquanto que há outros sítios em que o problema são a própria praxe como está definida, nesta cidade não, porque ela aqui está bem definida e delimitada: o problema aqui são as pessoas. Há imbecis em todo o lado. Inclusive em Coimbra. E os imbecis podem aproveitar-se da praxe como se aproveitam de tudo, o problema está neles. Haverá comportamentos excessivos e inaceitáveis, terá havido mais ainda há uns 20 anos atrás (era um meio muito mais fechado, não me é difícil acreditar), mas, apesar de tudo, são residuais. E condenáveis, não são aceites. No teu exemplo das caloiras nuas, Izzie, isso é coisa que não só seria condenável nas instâncias próprias da sociedade (onde deve ser, que é onde conta) como facilmente os estudantes que as obrigaram a isso seriam condenados em tribunal de praxe, por exemplo (ou seja, a praxe repudia isso: a existência desses comportamentos não é da responsabilidade da praxe, mas sim de energúmenos). E o único erro nessa situação é, realmente, chamarem isso de rasganço, pois que nem há 50 anos isso poderia ser considerado um rasganço, visto que o rasganço sempre foi uma prática executada pelos recém-licenciados depois de se formarem como símbolo do término do curso. caloiros nem têm traje antes da queima, é só o nome que lhe atribuíram que não faz sentido, não pondo em questão - não me é difícil acreditar que tenha acontecido - que tenha havido situações dessas).

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  19. Um ponto à parte, Izzie: eu sei que há um incitamento grande ao consumo de álcool, eu também o sofri na praxe, nunca cedi nem sofri represálias por isso, mas o problema não é da praxe: o problema é dos jovens. Ponto. O maior problema de eu nunca ter aceite beber quando me mandavam (é que eu não gosto de cerveja nem de vinho, se me mandassem beber sangria porque não beber enquanto me apetecesse) foi mesmo eu, não raramente, ser a única a ficar sóbria até ao fim da noite. Nunca fui a um peddy tascas porque, lá está, não sou de beber muito, por isso nunca me apeteceu ir (sempre fui mais de peddy pastelarias e cheguei a organizar um quando fui eu a praxar, mas as pessoas não gostam tanto porque sai mais caro, vá-se lá perceber :P ). O problema não é dos caloiros nem dos "doutores". Basta ver o que são as viagens de finalistas do secundário: são exactamente a mesma bosta, e aí não há praxe nenhuma. O incitamento ao álcool, o beber penaltis até cair, acontece na praxe como em todo o curso, não é um problema da praxe. Olha, as maiores bebedeiras de caixão à cova são as das queimas, o INEM não pára - e na queima já nem há caloiros. O problema é a peer pressure, quer haja praxe quer não haja. Os pares são uma principal fonte de influência para o consumo de álcool e drogas, a minha tese só veio dizer o que toda a gente sabe. Olha eu fui uma de três pessoas que não estavam completamente bêbadas no ano em que fui no carro (e no meu carro iam 26) e isso não teve nada a ver com praxe. Também fui uma das pessoas que não achou assim tanta piada a esse ano de ir no carro, diz que se tivesse bebido teria sido mais divertido, mas eu não vou lá com essa teoria, só vai quem quer. É muito fácil encontrares bêbados nos meios universitários, mas isso é porque é muito fácil lá encontrares muita malta nova em grupos.

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  20. Por fim quanto ao rasganço (desculpa o testamento, Luna), vim só ressalvar aquilo que já foi dito. É uma prática totalmente voluntária, a pedido do finalista/recém-formado, e com a presença de quem este quiser (não tem nada a ver com a praxe dos caloiros, nem nada relacionado com as hierarquias e diferenças de poder e argumentos afins).

    Eu, que sempre disse ao longo do curso que não o faria (não pelo rasganço em si, mas porque tinha pena do meu traje que tanto dinheiro custou a comprar) fiz mesmo rasganço quando acabei o curso. Decidi fazê-lo quando estava tão passada com a minha tese que já não a podia ver à frente e exasperava por que chegasse o dia de a despachar e defender. Resolvi rasgar como catarse da coisa - que é o fundamento da tradição. Apetecia-me cumprir a tradição à risca: era ter toda a gente à espera que eu saísse da defesa e fazer logo, mas isso não se coadunava muito com as minhas ideias, não achava piada a misturar essa parte divertida com a sobriedade que a defesa me exigia. E como queria que fosse uma festa de família, teria de ser a um fim-de-semana. Foi logo no sábado seguinte. Esteve a minha família mais próxima, os meus amigos de sempre e alguns colegas de curso que ficaram para a vida. Não fiz a parte dos comes e bebes (é ver malas térmicas e baldes de sangria e cerveja até mais não e batatas e sandes e tudo e tudo e tudo a chegar ao átrio das químicas à espera que o pessoal conviva um bocadinho antes do dito rasganço), mas fomos todos jantar depois. Fiquei com bocados de camisa e de saia para me taparem as partes intimas, levava roupa interior que não parecesse muito mal se fosse vista e andei a jogar ao meio enquanto eles passavam a minha capa uns para os outros. Fiquei bastante decente para o contexto, não foi nada violento (as meninas nem tinham força para rasgar, o traje teve de levar pequenos cortes) e foi, realmente, a catarse de todo um curso terminado com distinção. Soube-me ao derradeiro fim, mesmo, de uma maneira completamente mais realista do que as cartolas e bengalas do último ano. Depois andei não nua nem parecido, apesar de não ter sobrado muito do meu traje (a mini-saia que as minhas amigas me fizeram com o que restava da minha saia era substancialmente maior do que a maioria das saias que eu vejo qano sio à noite), mas andei toda a noite, jantar e afins, enrolada na minha capa, que essa fica bem inteira e pode perfeitamente tapar-nos da cabeça aos pés. Mas sim que enquanto eu estava a fazer o meu havia um rapaz qualquer a fazer também e ok, eu dele vi mais do que o que gostaria de te visto -_- Mas o rasganço é pura decisão da pessoa, é ela que o combina com os amigos e as pessoas sabem ao que vão: sabem o que é o rasganço e, sobretudo, sabem que amigos levam para lá, por isso podem perfeitamente deduzir quão rasgados vão ser.

    Deixo só, no comentário seguinte, um texto do diário As Beiras que explica bem o que é a coisa.

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    1. (deixo antes o link onde está uma transcrição da reportagem:
      http://www.forumcoimbra.com/forum/viewtopic.php?t=2650 )

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    2. (Ah e só respondendo à tua pergunta, já que eu não só assisti a outros como fiz o meu, o rasganço é giro e divertido especialmente para quem é rasgado. Porque o quis ser e fazer e convidou os amigos que quis para o fazerem. Não dá para explicar melhor do que isto. Claro que podes não concordar com a ideia, mas não é minimamente ambíguo como pode ser o que é tradicionalmente considerado de praxe, esta é uma questão de liberdade individual porque não há qualquer incentivo, hierarquia, etc etc etc. Eu quis para mim e diverti-me. Tu podias não querer para ti, tudo bem, mas é da vontade de quem o faz e inofensivo para quem esteja em redor - a menos que se choque com menos roupa ou com a nudez de alguns gajos bêbados que não se preocupam em se tapar, isso sim pode ser inconveniente mas lá está, depende do bom-senso de cada um.)

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    3. Eu fiz rasganço, e foi dos melhores dias da minha vida. A sensação de término, de over, de acabei, de já está, de vida nova, foi incomparável :)

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  21. Eu, que passei por 3 cidades com fortes tradições académicas acho que posso dizer que tenho uma perspectiva bastante ampla sobre a praxe. Vou começar por dizer algo que talvez te ofenda mas que toda a gente acha: quem andou em universidades em Lisboa não tem conhecimentos suficientes para poder argumentar. Parece um país à parte, não sabem o que é estar lá ou ver o que realmente é no resto do país. Há uma repulsa inata antes de saberem o que é e parecem nunca conhecer ninguém que tenha boas experiências e tenha aconselhado a juntar-se. Atenção digo isto mas até concordo com o que tu dizes. Hoje em dia começo-me a inclinar cada vez mais para ser contra as praxes.
    Eu estudei em Coimbra e corrijo-te já que quase ninguém adere ao rasganço. Isso é só para aquelas gajas que se querem mostrar ou são completamente faralhadas da cabeça em que tudo está bem. Andei em Coimbra mas no politécnico que tem regras diferentes da Universidade. Na minha Escola as praxes só podiam ocorrer dentro do recinto da mesma de forma a poderem ser vigiadas. Era estritamente proibida qualquer forma de praxe psicológica. Só fazíamos jogos como a imitação dos jogos sem fronteiras em criança. "Sexuais" só tínhamos o caso de andar um caloiro a correr a dizer que tinha o c* a arder e outro corria atrás dele a dizer que era bombeiro. Continua a ser das cenas mais engraçadas que me lembro de ter assistido na vida. Contudo, tinha algumas "doutoras" que eram umas autênticas vacas. Como em todo o lado há sempre gente boa e gente má. Já alguém falavas "dos m*erdas" num outro blog. Gente sem educação que abusava. Gente que eu não seria (nem fui) amiga ou subordinada, e, só por isso, me custava muito estar a ser mandada por gente que desprezava, porque o que com os outros eram brincadeiras para estas eram obrigações. Só por saber que hoje em dia há cada vez mais espécimes desses nas universidades tenho pena dos recentes caloiros. A praxe será o que se vê nas notícias. Aquela submissão sem sentido. Hoje em dia teria resposta para elas mas naquela altura, com 18 aninhos, era muito ingénua e tímida para contestar 3 gajas e isso significar abdicar do resto que achava bem engraçado, principalmente, depois de um ano inteiro a marrar para as provas finais do 12º (na altura ainda eram todas as disciplinas nesse ano). Era voltar a ser criança depois de termos passado por pressões que nem adultos, tanto na escola como na vida em geral (mortes, doenças graves, zangas que quebram laços únicos - pelo menos para mim foi assim esse ano). Enfim, esquecer que a vida é uma merda.
    (...)

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  22. (...)
    Eu nunca praxei, não tenho feitio para isso. Apenas mandava os caloiros comprarem garrafas de água ao bar de modo a que eles pudessem fugir um bocadinho àquilo, se calhar porque já achava que muitos dos meus colegas tinham aprendido bem com as "vacas".
    Depois de ter estado numa outra universidade, acho que me tornei anti-praxe. Não é por acaso que toda a gente indica aquela como a mais horrenda de todas as praxes. Aliás não há praxe, há abuso. Semanas seguidas a voltar para casa às 3h da manhã e voltar a ir às 7h. Andar no frio de uma terra com neve. Serem impedidos de estudar. Mas visto que também lá andei 2 anos e quase nunca ninguém me dirigiu a palavra já quer dizer muito sobre o tipo de pessoas que frequentam a universidade e o género que serão como "drs". Se também é assim na Lusófona, em Famalicão e nos outros locais onde ocorrem acidentes que fazem os media falar mal da praxe, então sim, é legítimo proibí-la porque não há gente responsável à frente de uma coisa que dá oportunidade para tanta gente mostrar o c*brão que há em si.
    Mas também é verdade que nunca conheci ninguém que tivesse desistido da praxe depois de lá andar (e não podemos ser todos carneiros!).
    Para finalizar, também desde o início penso o mesmo que tu. No caso do sobrevivente não ter qualquer tipo de culpa já se deve sentir mal por ser o único a safar-se e não precisa que o culpem. Acho que os pais precisam ter a quem possam apontar o dedo numa tentativa de amenizar a dor. Precisam de uma lógica no que pode ter-se limitado a um acidente estúpido. De qualquer das formas, não percebo como alguém que não é caloiro aluga uma casa para andar a rastejar com pedras atadas às pernas... Cena muito, muito paranormal... Muito maçon, como diz o Bruno Nogueira.

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  23. Na minha faculdade a praxe durava (e penso que ainda dura) um só dia. Mandaram-me descalçar, não o fiz, mandaram-me ir de joelhos, não fui, queriam que bebesse, não bebi. Se durasse mais do que aquela manhã/tarde, não punha lá os pés até aquilo acabar. Seria incapaz de estudar em Coimbra, não suporto tradição académica. Como disse a Izzie ali em cima, era apanhar o autocarro e ir para casa, livra. Ainda assim, fiz muitos e bons amigos ao longo do curso, não era precisa praxe para nada (aliás, nunca mais voltei a ver as pessoas que estiveram ao pé de mim no dia da praxe, foram lá para as turmas delas, com a vida delas). Mas ver coisas como documentos para se declararem anti-praxe como a Luna linkou é coisa para me chocar...

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  24. Só tenho uma coisa a dizer: o teu blogue é muito mais animado do que o meu e gosto mais de anónimos que se chamam unkown do que anónimos - como que lhes dá alguma dignidade e assim.
    (Boa malha, btw)

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    1. Off topic: eu não tenho blog, mas tenho conta google (acho que tenho, porque o meu email é gmail) e sempe que comento num blog só posso escolher essa opção. Ora acontece que aparece o tal unkown. Não sei se há alguma maneira em que apareça o meu nome mas este comentário está pertinente (apesar da ironia subjacente) pelo que vou passar a assinar após o texto. Não é a mesma coisa, mas não sei o que mais possa fazer.

      Helena

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    2. Ó Helena, não leve a mal que a boca não era para si em particular, era para anonimicidade em geral. :)
      Beijinhos!

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  25. Concordo em geral com o texto (é um belo texto). Só discordo um pouco da visão que tens do sobrevivente e do acontecimento em concreto e do linchamento (que só acontece porque ele se remete a um silêncio suspeito).. Tudo indica para que a versão do acidente tal como a família dele descreve esteja bem longe da verdade. Estavam provavelmente muito perto de água numa zona perigosa, a cumprir uma provação qualquer, a mando do dux (e talvez de outra pessoa). O que pode colocar a coisa no ponto do homicídio involuntário. Não é propriamente a mesma coisa causar a morte a seis pessoas porque as mandaste para dentro ou perto de água num dia de alerta vermelho, à noite, com ondas gigantescas e lua cheia (podia ver-se perfeitamente o estado do mar), pessoas que te obedeciam cegamente (ao ponto de andarem a rastejar com pedras atadas aos tornozelos apesar de já nem serem caloiros) do que, vamos supor, rebentar-te um pneu do carro, perderes o controlo da viatura e atropelares pessoas numa paragem de autocarro. Há uma diferença enorme. A situação era claramente de risco. O silêncio do Dux diz o resto, assim como a mirabolante história da "onda cavaleira" e deles estarem sentados de costas. É literalmente impossível uma onda chegar a areia seca e arrastar de volta para o mar alguém. A única hipótese de ser puxado de volta e não apenas arremessado contra a costa praia acima até a onda perder força é se estiveres na parte mais inclinada da praia, já perto da água. Aí, não dá hipótese, mesmo num dia normal, se vier uma onda maior, porque puxa com muita força. A outra hipótese é estarem entalados perto de uma rocha e terem sido arremessados contra ela, o que podia explicar o facto de um deles não ter água nos pulmões de acordo com notícias, ou seja, não morreu afogado.

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    1. Quanto às praxes, fui fortemente praxado durante uns dias, mas foi geralmente divertido. No ano seguinte, quase não houve praxes e o fenómeno foi esmorecendo (eu nunca me interessei, obviamente, por praxar nem por nenhumas tretas de trajes e afins que sempre achei uma bimbisse provinciana do pior) Quando saí do ISEG em 2000 não havia nada, havia uma festa de recepção ao caloiro e actividades do género. Não sei como está agora mas faço votos para que este fenómeno das neo-praxes não exista lá. Parece-me que quanto mais atrasados e ignorantes são os alunos de uma universidade, mais importância dão às praxes e isso já era assim no meu tempo. Coimbra será uma excepção, até considero que desde que não sejam humilhantes ou agressivas, faz um certo sentido uma tradição de praxes bem enquadrada... mas em Lisboa e em privadas, deixem-me rir. Só mesmo labregos podem cair nisso. É nítido que algumas privadas até gostam desse simulacro de tradição académica entre os seus estudantes. Espero que se fodam, como se costuma dizer, porque agora quero ver qual é o pai que deixa os filhos estudar numa universidade onde há uma espécie de seita com a qual são tolerantes.

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    2. Tenho alguma dificuldade em enquadrar esta situação no homicídio por negligência. É verdade que há risco, mas não pode ser totalmente assacado a quem eventualmente conduz a situação. E não me parece que tenha havido qualquer prefiguração do que poderia acontecer por parte de qualquer um dos envolvidos. Mas vai ser interessante ver o que sai do inquérito...

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    3. Lourenço

      percebo a tua posição, mas confesso que no meio de todo o ruído ainda não consegui - e penso que nem eu nem ninguém - perceber o que realmente aconteceu. E enquanto não se souber o que aconteceu, parece-me exagerada a culpabilização a priori do único sobrevivente, que mesmo que tenha uma dose de culpa, estará certamente destroçado.
      Mas concordo que se deva determinar exactamente o que aconteceu.

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  26. Muito bom Ana, disseste tudo! Beijinhos

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