29 de outubro de 2015

O problema da meritocracia

... é os privilegiados não repararem que já começaram a corrida um quilómetro à frente.

66 comentários:

  1. Pois,...
    ...é verdade...
    ...mas por outro lado uma igualdade imposta leva a que os mais capazes se desinteressem...

    É no equilíbrio que está o ponto fulcral da questão...

    :)

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    1. Os mais capazes ou os que tiveram a sorte de começar a corrida à frente?

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    2. Os mais capazes! Independentemente de onde começaram a corrida!

      :)

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    3. FYI, a esquerda moderna, aka social democracia, e mesmo a esquerda "radical", não advogam igualdade total, mas sim proporcionalidade. A igualdade a ser imposta, absolutamente necessária, é a de oportunidades. No resto, a esquerda moderna não verá com bons olhos é haver uma disparidade absurda de salários na mesma estrutura, ou empresa, onde aquele que limpa ganha às vezes cem vezes menos que o administrador. Uma sociedade justa reconhece que há trabalho diferenciado e que merece salários diferentes, mas reconhece também que sem alguém a limpar, a pavimentar, a carpinteirar, a vender, a labutar na linha de produção, o administrador não existe. Melhor distribuição, menor fosso, não é igualdade forçada ou aritmética, é justiça distributiva.

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    4. Já agora, CN Gil, quantos prémios nobel da medicina faleceram antes dos dez anos, em condições miseráveis? pergunto-me sempre isso, quando vejo gente com fome ou em cenário de guerra. às tantas está ali a cura do cancro.

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    5. E quem são os mais capazes? os que tiveram a sorte de nascer em berço de ouro e todas as oportunidades e mais algumas? ali como o Richard do cartoon?

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    6. Exacto. No fundo estamos a dizer a mesma coisa! O sentido da frase do post, por mais nobre que seja, presta-se a multiplas interpretações.
      Como tal,dou um exemplo:
      Imagina um gajo que é mecânico! Desde miudo que aprendeu. foi-se fazendo mecânico, sabe tudo sobre motores, é bom no que faz! Trabalha numa oficina que de repente contrata um engenheiro mecânico, puto betinho que tem a teoria toda, mas na prática é uma nódoa e ainda tem de virar muitos frangos!
      No entanto, o dono da oficina, porque está a contratar um engenheiro, paga-lhe quase o dobro do que paga ao gajo mais competente!
      O mais capaz aqui não é o betinho, como é óbvio! É o gajo que trabalha naquilo desde sempre e que gosta do que faz! Mas às tantas vê o gajo que começou na corrida um km à frente dele e pensa "Fosga-se, se ele ganha, ele que faça o trabalho!".
      A consequência disto, para a oficina, é má!

      Quando falo nos mais capazes, é mesmo nos mais capazes! É que os mais capazes, independentemente de onde começaram a corrida, conseguem sempre perceber o que os outros sabem! E os mais capazes, se o mérito não lhes for reconhecido, acabam por se baldar e pensar "Vou-me esforçar para quê?", independentemente de onde começaram a corrida!

      Não falar em meritocracia é nivelar todos! Por baixo!

      Vão haver sempre pessoas com melhores e piores oportunidades. Vão haver sempre pessoas com mais ou menos sorte. Vão haver sempre pobres e ricos!

      Provavelmente, numa meritocracia, muitos dos que começam com avanço depressa ficariam para trás...
      ...se falássemos apenas de mérito!

      E já agora, Izzie, eu não coloquei as minhas palavras numa perspectiva politica de esquerda ou direita, simplesmente porque me estou marimbando para as perspectivas politicas de esquerda ou direita, modernas, antigas ou arcaicas! Essa coisa de esquerdas e direitas caiu com o muro de Berlim há já muitos anos atrás. Tudo o que ainda sobra são cortinas de fumo! Para mim há ideias! Se as acho correctas, aplaudo, se as acho erradas refilo! E não me interessa quem as têm! Nem a esquerda, nem a direita são donas da razão!

      :)

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    7. Já agora, há uma experiência social engraçada em que põem pessoas a jogar ao monopólio, em que algumas têm uma clara vantagem: curiosamente, ao longo do jogo, as pessoas que têm vantagem vão-se sentindo realmente merecedoras dessa vantagem.

      http://planetsave.com/2013/12/23/a-rigged-game-of-monopoly-reveals-how-feeling-wealthy-changes-our-behavior-ted-video/

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    8. Essa Ted Talk devia ser obrigatória. Amei. Confirma tanto do que já acreditava por observação e intuição, e a cena de começarem a ter gozo e sentir-se meritórios por ganhar um jogo viciado... priceless.

      (fun fact: a pessoa melhor jogadora de monopoly que conheço é comunista, e daquelas ferrenhas. limpa-nos sempre, benzá.)

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    9. Privilege = entitlement

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  2. E equipados com ténis xpto, enquanto que no pelotão se corre descalço. E sem piquen'almoço, muitas das vezes.

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  3. By the way, lembrei-me deste excelente e eloquente cartoon:

    http://thewireless.co.nz/articles/the-pencilsword-on-a-plate

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  4. I say one name and one name only: Cristiano Ronaldo

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    1. Esse não é a regra, é a excepção: e lá está, é porque é mesmo excepcional. Mas se calhasse não ter jeito para jogar à bola, onde estaria hoje em dia? A assentar tijolo em câmara de lobos?

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    2. O meu ponto é: esforço, dedicação e alguma ambição, que é o que ele tem de sobra. É fazer tudo o que podes, o melhor que souberes, e chegarás onde puderes. Ele percebeu de pequeno que tinha jeito para a bola, muitos de nós nunca saberão para o que foram talhados, alguns só o descobrem mais tarde. Outros movem-se por algo que não a paixão, movem-se por poder, por exemplo. Pela fama, enfim. Também te posso dar o exemplo do Belmiro e do Nabeiro. Também te poderia dar milhares de exemplos de pessoas que nasceram em berços de ouro e se desgraçaram nas drogas, pessoas que subiram ao topo e se deixaram inebriar pela fama, acabando na sarjeta. É o vitimismo que acaba connosco, Luna... É o nosso emocional que dita as regras, é dele que temos de cuidar, é a forma como vemos o mundo que nos define. Nós não somos o que fizeram connosco, a condição em que nascemos, mas o que fizemos com isso ;) Thats's the way I see it. Bjo

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    3. Não Isa, nós somos também fruto das nossas circunstâncias sociais.

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    4. (e não há esforço ou dedicação que nos valham se nos falhar o básico quando mais precisamos)

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    5. talvez seja eu que sou uma sonhadora e uma idealista, e um bocadinho orgulhosa..., mas recuso-me a acreditar e a pactuar com o sistema de castas, aquele na Índia que te diz que se tu nasceste intocável não podes aspirar a mais nada na vida. E tens de esperar nascer de novo e rezar para que seja numa família de comerciantes. A minha fé não é assim tanta...

      (Faltou-me ali em cima o compromisso, commitment, tens de estar 100% comprometida com a tua causa... Na verdade falta imensa coisa, mas acho que deu para entender o meu ponto.)

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    6. O Belmiro não é um bom exemplo, just sayin'. A menos que se desconheça como começou a sua "carreira".
      Já agora: Armando Vara, Isaltino Morais, Fátima Felgueiras, José Sócrates: todos vieram de origens mais ou menos humildes, e estão cheios de bagalhoça. Mérito? Lá esforço e dedicação tiveram eles.

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    7. Eu tinha uma colega de faculdade de origens muito humildes. Entrou no curso, que tinha mínima de entrada de salvo erro 16 valores, acabou-o com a mesma média que eu, tinha um bom currículo e conseguiu um estágio bom onde fez um bom trabalho. A sua carreira na comunicação acabou aí.

      Faltou-lhe mérito, cultura geral, esforço? Não. Faltaram-lhes aqueles subtis sinais de pertença, o saber vestir-se para a situação e o ambiente, o "bom gosto", o saber conversar sobres restaurantes, viagens e produtos culturais, as referências a experiências da juventude. Algumas dessas experiências eram-lhe financeiramente inacessíveis, outras eram resultado do ambiente em que cresceu, das pessoas de que estava rodeada.

      Ela hoje deve ganhar mais do que eu, lidera uma equipa num call center. Mas nunca teve oportunidade de fazer o que queria, e não foi, afianço-vos, por falta de esforço.

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    8. (de qualquer forma, a ideia de que justiça consiste no ponto final A ser acessível a duas pessoas, B e C, com capacidades análogas e níveis de esforço completamente diferentes, parece-me absurda. B chegará lá se não fizer nada de muito errado, C se não fizer mais nada do que esforçar-se nesse sentido. Isto é igualdade de oportunidades?)

      (e já agora, o facto de C ter chegado ao ponto A significa depois que não há desigualdade de oportunidades? O facto de os EUA terem um presidente negro significa que não há racismo estrutural nos EUA, que há mais negros pobres, mais negros em empregos mal pagos e mais negros na prisão porque há proporcionalmente realmente mais negros que não se esforçam?)

      (ok, a última: e se alguém não se esforçar, de que patamar mínimo de dignidade humana é que achamos que deve beneficiar, se algum? Aqueles outros rapazolas miseráveis de Rabo de Peixe, uns com, outros sem comida na mesa, que não sabiam jogar à bola e que se estavam nas tintas para o empreendedorismo, o que nos merecem?)

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    9. Lá está, o esforço e mérito não recompensam todos da mesma forma.

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    10. Rita, agora lembrei-me desta citação do Chris Rock:

      "So, to say Obama is progress is saying that he’s the first black person that is qualified to be president. That’s not black progress. That’s white progress. There’s been black people qualified to be president for hundreds of years. If you saw Tina Turner and Ike having a lovely breakfast over there, would you say their relationship’s improved? Some people would. But a smart person would go, “Oh, he stopped punching her in the face.” It’s not up to her. Ike and Tina Turner’s relationship has nothing to do with Tina Turner. Nothing. It just doesn’t. The question is, you know, my kids are smart, educated, beautiful, polite children. There have been smart, educated, beautiful, polite black children for hundreds of years. The advantage that my children have is that my children are encountering the nicest white people that America has ever produced. Let’s hope America keeps producing nicer white people."

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    11. A propósito ainda da minha colega, o Guardian tem escrito uma série de artigos sobre isto (acho que este é o primeiro, mas foi uma série, inclusive testemunhos): http://www.theguardian.com/society/2015/jun/15/poshness-tests-block-working-class-applicants-at-top-companies

      (isto é uma evidência. Há uma série de códigos não escritos que estão muito presentes nos recrutamentos e que nalguns casos ditam até quem é mais competente - há certas posições onde o trabalho de alguém será francamente menos eficaz se essa pessoa não dominar todo um código de comportamento que não pode ser estudado nem conseguido à custa de esforço)(encontrem-me um embaixador português de origens de classe média-baixa, por exemplo)

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  5. De facto... Eu fiei-me na meritocracia, mas fui forçada a perceber que não basta ser bom, é preciso cair em graça.

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  6. Uma pessoa oriunda de um meio socioeconómico desfavorecido precisa de ser verdadeiramente brilhante para singrar. Tudo joga contra ela e necessita de ter uma força de vontade excepcional para ultrapassar os obstáculos. Aqueles que nascem num meio privilegiado realmente partem uns bons quilómetros à frente. O acesso ao conhecimento está facilitado, as redes familiares e de amigos ajudam também nesse processo. Reparo também que em muitos sectores da sociedade os nomes perpetuam-se por gerações e, aqueles que não, são uns verdadeiros outsiders.

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  7. Ontem a conversa lá em casa passou pela "almofada" e a quantidade de gente que não vê como nasceu (e vive) em cima de uma.

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  8. Pior do que os privilegiados não se aperceberem disso, é quem nivela tudo pela mesma bitola, fingir que não percebe isso.

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  9. Luto por mim, todos os dias. Mas sei que, sem tacho, será difícil...

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  10. Essa foi bem metida!!!
    Mark Margo
    www.markmargo.net (site cor de rosa com celebridades, cinema e playmates )

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  11. certo. A meritocracia tem defeitos e é "terrível". Mas qual é exactamente a alternativa? Como é que se determina quem acede a determinado lugar, quem meter melhor salário, quem acarreta maior responsabilidade?

    Apontar defeitos a um sistema é das coisas mais fáceis no mundo. Todos os têm. Arranjar uma alternativa melhor é que a parte tramada.

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    1. o ponto do post não era esse. acontece que geralmente, quem mais vajo defender a meritocracia, vendo-se obviamente como mais merecedoras por serem a ser ver melhores, são pessoas confortavelmente instaladas no seu privilégio de herdeiras/ricas/de famílias influentes/etc cuja posição resultou muito mais das favoráveis circusntâncias sociais em que nasceram do que do seu grande esforço e mérito pessoal.

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    2. Mas, Luna, a questão continua a colocar-se: qual é a alternativa?

      E repara que não digo que não há injustiças, porque as há, quem começa a corrida mais atrás tem necessariamente de correr mais e mais depressa, o caminho é mais espinhoso, mas, por mais que se faça, hão-de existir sempre famílias mais "equipadas" do que outras (quanto mais não seja porque há pessoas mais interessadas no mundo do que outras). Deixar os filhos dessas famílias de fora só porque o seu percurso foi mais fácil, parece-me não só preconceituoso, como discriminatório.

      Se tu tivesses uma empresa , quem promoverias? O amigo burro ou a pessoa competente? É que as pessoas que gerem empresas, presumo que queiram que elas funcionem e que dêem os malfadados lucros... ter a pessoa certa - e por certa refiro-me à melhor, independentemente da sua origem- no lugar no lugar certo é meio caminho andado para lá chegar.

      (Se há casos de pessoas que não valem o ordenado que recebem e que só o recebem porque são o fulano Y e Z? Há. Mas normalmente dá mau resultado: vide caso BES)

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    3. "De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades." Karl Marx

      O grande problema da meritocracia, na forma como é aplicada na sociedade, é que ela promove maiores desigualdades e disparidades, uma vez que promove a competição entre indivíduos, na qua os mais capazes "ganham" e os menos "perdem", sendo que essa competição é desleal à partida, condenando franjas da sociedade a nunca conseguirem sair do limiar da pobreza e como tal equipar-se de forma a competir em igualdade. No fundo, é a ei da selva, ganha o mais forte. Na selva é simples, o que acontece aos que perdem sempre? Morrem à fome ou são comidos. É isso que queremos para a nossa sociedade?

      O que eu defendo é que deve haver menos desproporcionalidade, e que o incentivo para se ser cada vez melhor não pode passar apenas por compensação monetária. Não há mérito que explique que numa mesma estrutura empresarial possa haver gente (administradores) a ganhar 30 - 100 vezes mais do que outras (operários), geralmente as que realmente produzem a riqueza.

      Depois, há ainda a questão da definição de mérito? O que é o mérito? Porque é que certas profissões, sectores profissionais, têm mais mérito que outros? E quem definiu exactamente essa concepção de mérito? O sector privilegiado que tem acesso aos meios para chegar a essas posições. É que mesmo poder estudar mais é um privilégio, não apenas uma escolha pessoal decorrente de esforço e mérito. Porque é que um agricultor tem necessariamente menos mérito do que um advogado? Trabalhar a terra requer muito conhecimento e experiência, além de muito trabalho duro. Porque é que esse trabalho tem que valer menos do que o de alguém que teve a sorte de poder estudar mais? Certamente não trabalham menos, e concordamos que todos temos como necessidade básica comer, e no entanto o sector primário é no geral muito mal recompensado.

      Depois há ainda aquela velha questão de capital vs trabalho. E vou dar um pequeno exemplo real de que tomei conhecimento há pouco tempo. Um ricalhaço estrangeiro comprou uma quintinha no douro por 1,5 milhoes de euros. Nessa quintinha, todo o ano, tem um casal de caseiros que, à excepção da época das vindimas, onde se contrata mais gente, durante todo o ano têm o trabalho de tratar de toda a vinha sozinhos: podar, estacar, tratar, etc (lá o que seja preciso para manter uma vinha). Para tal precisam de conhecer as técnicas, os tipos de vinha e uva, ter carta de tractorista, etc. Estas pessoas têm o trabalho de preparar a vinha para produzir riqueza, isto é, as toneladas de uva, que serão depois vendidas. Ele ganha 1000€, ela 650€. Apesar de terem toda a capacidade de produzir riqueza sozinhos (e fazem-no), como não têm nem terão nunca capital suficiente para poderem ter o seu próprio pedacinho de chão no douro, estas almas irão até ao fim das suas vidas produzir riqueza para uma pessoa que nem sequer lá põe os pés. Onde está o mérito aqui? O mérito segue o dinheiro...

      Eu acho que confundes justiça com o sistema estabelecido. Fosse a meritocracia um sistema realmente justo que recompensasse o trabalho, a dedicação, mas não, como está favorece apenas o privilégio. Não há anos de estudo que me façam pensar que mereço ganhar 10 vezes mais do que um operário, nem que justifique que haja tanta gente a viver com tão pouco para que uns quantos possam viver com tanto.

      “E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?” Almeida Garrett

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    4. p.s. tenho perfeita noção de que sou uma privilegiada, que desde que nasci nem se pôs sequer a hipótese de que não fosse para a faculdade, por exemplo, pq venho de uma família de pessoas formadas há várias gerações e nem se concebe outra hipótese. se dependeu apenas do meu mérito pessoal? claro que não.

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    5. Luna, fico sempre com a sensação que condenas de alguma forma aqueles que têm alguma sorte, porque nasceram em determinado meio, ou com algum privilégio que advém, não do seu esforço pessoal, mas das suas circunstâncias (e essa sorte/azar existe sempre, somos todos uns sortudos por não termos nascido num país paupérrimo em África) e que, se vivêssemos num sistema de pontos, teríamos de retirar pontos às pessoas que se enquadrassem nessa “classe”, para as puxar para baixo. E a minha opinião é a contrária, é a de que se devia puxar os outros para cima. Claro que há injustiças, claro que há pessoas a ganhar miseravelmente, claro que há disparidades injustificadas nos salários – que, se não falarmos em casos chocantes, são muitas vezes reequilibradas pela tributação em sede de IRS - 53% é dose..., mas a verdade é que não consigo ter essa visão catastrofista de que todos os que estão, de alguma forma, numa posição de privilégio/poder, estão dispostos a explorar os seus semelhantes e desejosos de lhes impedir a progressão. Se há quem explore? Há. Mas acho que partir do pressuposto que são todos assim, inquina a discussão e faz extremar as posições. Não é a pôr todos no mesmo saco, ou a partir do pressuposto que, pelo facto de terem nascido na família A ou B ou serem empresários “ricalhaços”, têm, necessariamente, a palavra “desumanos” tatuada na testa - que se consegue uma sociedade mais justa. Na minha opinião esse extremar de posições só serve para acantonar cada um dos “lados” atrás da sua barricada. Todos nós havemos de saber de casos concretos em que as coisas correram bem, e outros em que as coisas correram mal, porque a verdade é que há empresários “ricalhaços” bons e empresários “ricalhaços” maus. Da mesma forma que há “operários” bons e “operários” maus.

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    6. Palmier, eu não advogo o puxar todos para baixo, mas puxar para cima, mas para que isso possa acontecer é necessário que as oportunidades sejam cada vez mais equilibradas, e não são, e a única forma de tentar melhorar isso é reconhecê-lo. Que uns estão onde estão, não por mérito, mas por sorte de nascerem na família em que nasceram. E como tal, a tal da meritocracia não corresponde a jutiça: não ganham os mais capazes, mas os mais sortudos por à partida estarem em vantagem.
      É muito difícil que alguém nascido no seio de uma família desfavorecida, por mais esforço e mérito que possa ter, consiga alcançar um nível de vida superior (aliás um estudo recente nos EUA - expoente máximo do capitalismo e "meritocracia" - demonstrou que mais facilmente um filho de emigrantes marroquinos consegue saltar de classe em frança (estado mais social) que um americano pobre). O que eu quero é que todos tenham o suficiente para poder viver com dignidade, e para isso, sim, os mais ricos têm que contribuir mais, com mais impostos, para que todos possam ter essa oportunidade: tendo acesso a saúde, educação, habitação digna, rendimento justo. Um Ricardo Salgado não precisa de ganhar uma pensão de 90 mil euros por mês para viver para lá de bem. Uma família não consegue viver perto de bem com o ordenado mínimo. É desta disparidade e desproporcionalidade de que falo.

      (e nem vamos falar do empresário que nao gosta de pagar aos seus funcionários e por isso lhes paga sempre o mínimo possível)

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    7. Luna, estamos de acordo em muitas coisas, há muito a fazer e há muitas injustiças. Se olharmos então às benesses que advém da posse de um cartão partidário (que não tem nada a ver com a origem da pessoa e suas condicionantes mas da cor do cartão - e qualquer cor serve, desde que coincidente com a que está no poder em determinado momento) ainda mais encontraremos. O que eu acho errado na tua linha de raciocínio é o facto de tomares o todo pela parte. O facto de existirem muitas situações menos boas (injustas e não merecidas) – e como vês estou a reconhecer que existem - não quer dizer que sejam todas assim. Não quer dizer que, por vezes, o sortudo não seja o melhor e que o menos afortunado não ascenda por vezes ao lugar de topo. O mundo não é perfeito, as pessoas não são perfeitas e não vivemos numa ilha… os tais ricos, e por ricos presumo que estamos a falar de empresários que arriscam o seu capital, investem (podiam deixá-lo apenas no banco a criar raízes… ou juros…), criam postos de trabalho e, naturalmente, procurarão o lucro, não têm necessariamente de ser só mauzões exploradores (também os há!), mas diabolizar por atacado parece-me também… injusto. É que continuamos com o problema inicial. Tendo a Meritocracia os seus defeitos (e sendo muitas vezes subvertida) há alguma alternativa melhor?

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    8. Não me queria meter nesta conversa, mas acho que não foi bem apreendido o conceito de "meritocracia" e "privilégio". Há dois anos eu era muito ignorante sobre o último, por exemplo, e a relevância de argumentos do tipo "not all men/white/rich/thin people", mas há meios, em a pessoa se interessando, para se educar e aprender. Fui um abrolhos do caraças, e que me mudou profundamente.

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    9. O que eu acho é que infelizmente, o que se entende hoje por meritocracia, é tudo menos fruto de mérito, mas status social. E que esse status permite acesso a uma distribuição de riqueza que não sai dos mesmos círculos e famílias, que detêm o privilegio e também grande parte do poder instituído. O que eu quero é que não se premeie sistematicamente o privilégio*, e se dê oportunidade a que todos se possam valer pelo seu mérito próprio. Falavas acima da escolha entre "o primo burro e o empregado competente", mas há alguma dúvida de que o "primo burro" ganha 90% das vezes?

      *e já agora gostava que quem nasce em meios claramente muito favorecidos, tivesse noção de que a posição que ocupa, aquilo que ganha, o seu nível de vida, não se devem a merecimento, nem ao fruto do seu trabalho, mas no fundo, a uma sorte do caracinhas, e por isso que pensassem bem antes de falar em mérito.

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    10. Já agora, Louis CK on white privilege:

      https://www.youtube.com/watch?v=87LGmm1M5Is

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    11. Ou

      https://www.youtube.com/watch?v=GPdqlROzgvg

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    12. Mas para responder melhor à tua pergunta, o que defendo então? Digamos que uma meritocracia mais justa socialmente, em que sim, a competência seja recompensada, mas não de forma tão desproporcional que castigue os menos equipados. Um sistema social que garanta que mesmo os menos equipados possam viver dignamente e ter meios de poder equipar os seus filhos e sair do ciclo de pobreza. Um sistema em que a distribuição de riqueza não é de tal forma desigual que cria abismos sociais difíceis de transpor. E para isso não basta o acesso ao ensino, mas dar condições financeiras para que a falta de recursos impeça a continuação de estudos por se precisar de pôr comida na mesa. Que mesmo as famílias mais humildes possam sustentar filhos a estudar. Se para que isto seja possível os mais favorecidos tenham de ganhar um pouco menos e contribuir socialmente com mais, parece-me aceitável.

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    13. Luna, repara que, em teoria, e apesar de não conseguir olhar para o mundo nessa matriz preto e branco, concordo com tudo o que dizes, também eu acho que uma sociedade onde todos tivessem acesso a tudo e onde aqueles que realmente merecem fossem sempre os escolhidos, seria seguramente uma sociedade mais justa e equilibrada, uma sociedade perfeita diria mesmo. Mas, e há sempre um "mas"... o problema é que não vivemos num mundo perfeito e as questões têm de ser analisadas em termos práticos e em termos práticos, lá está, como disse acima, não vivemos numa ilha. Ora, se subires os impostos em sede de IRS para os que mais ganham (para uma taxa de...? 60%? 70%?) o que achas que vai acontecer? Que essas pessoas vão mesmo continuar a trabalhar no duro para, no fim do ano entregarem tudo ao Estado? Talvez peguem nas coisas e, sendo pessoas habilitadas, escolham ir trabalhar para outro país... E se subires o IRC às empresas? As que forem de capital estrangeiro deslocalizam-se num ápice, as portuguesas mais bem assessoradas - e que portanto, em teoria, pagariam mais impostos - idem (aliás, com os impostos que temos neste momento, já muitas se foram) portanto, quando fizesses as contas no final, é bem provável que, apesar do nível de impostos ter subido, tivesses arrecadado menos...
      Ok., podes dizer-me que se podia subir a taxa do imposto sobre os capitais/juros (como vi a Izzie defender no Pipoco aqui há uns tempos), mas o capital circula tão rapidamente e por circuitos tão bem oleados - e lá voltamos novamente ao caso BES... - que, antes de o fazer, seria bom que existisse um maior controlo sobre esses circuitos - que não são apenas portugueses e portanto não dependem apenas de nós-, caso contrário... puf, desaparecia todo nos meandros das off-shores, podemos taxar as heranças, claro, e aumentar o IVA dos bens de luxo, mas, feitas as contas - contas que têm de ser feitas no mundo real e não no mundo perfeito - achas que o resultado ia ser positivo? É que a mim parece-me que, no fim do dia, as receitas acabariam por cair e em vez de ficares com mais capital disponível para políticas sociais, ficarias com menos...

      (espero - não por mim, que não estou de acordo com este novo modus operandi pós eleitoral- que as negociações entre PS, BE e PCP sejam mais produtivas que estas nossas :), que acho que, por mais que digamos, dificilmente chegaremos a acordo nos métodos para atingir o fim :)

      Izzie, desde já admito que não sou uma estudiosa do assunto, tenho, no entanto, as minhas convicções, convicções que fui formando ao longo do tempo e através da minha experiência (sim já sei, já sei... a minha experiência não vale nada porque está inquinada...). No entanto não percebi bem o ponto onde querias chegar... acho que temos, claramente, uma forma de olhar para os problemas (e eventuais soluções) diferente: Vocês mais chegadas à esquerda e eu mais centro-direita. Ora, a pergunta que te faço, e uma vez que não sou uma entendida em ideologias deixo-me já de fora, é se as pessoas de centro-direita (que não olham para o mundo nessa versão preto-branco/bons-maus/ricos-pobres) o são apenas por ignorância, por não se terem interessado, educado e aprendido...? E que, caso se tivessem interessado, educado e aprendido seriam, afinal, de esquerda?

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    14. Bom, acho que nem eu nem a Luna dividimos o mundo entre bons e maus, que isto não é uma coboiada, e mesmo nessas eu prefiro o género Sérgio Leone a John Wayne. O mundo não é preto e branco, mas sim centenas tons de cinza.

      Adiante. Cá em casa não estamos perto de descontar 53% no irs, mas uns vinte pontos atrás. Mas para que não se diga que a esquerda só faz pão com farinha alheia, desde já afirmo que não me importava nada de descontar esses 53% se isso significasse uma escola universal e gratuita (com alimentação a preço comportável a gratuito, e manuais também), um SNS universal e gratuito (onde médicos e enfermeiros ganhassem condignamente se optassem por um regime de exclusividade) é muito mais. Na boa. Não emigrava, não. Quem ganha quinhentos mil por ano aguenta bem 60%, e se não aguenta está a viver acima das nossas possibilidades. O que nos, colectividade, não aguentamos é haver quem tenha de escolher entre dentista e alimentação, por exemplo.

      Já agora, eu não acho que as pessoas de direita sejam mas pessoas. Temos visões diferentes do mundo, mas estou como o outro, tenho muitas saudades dos democrata- cristãos, que ao menos ainda partilham a visão de uma sociedade mais justa, e não a selvajaria liberal. Acho é que quem está bem na vida se esquece muito facilmente de quem não está, e também facilmente atribui este estado de coisas ao facto de não serem pessoas esforçadas e meritórias. É o problema da meritocracia é este: se se parte do princípio de que quem merece e se esforça consegue, então estamos a dizer que quem não tem uma vida decente também o merece, porque não se esforçou. É isto não é uma questão de direita ou de esquerda, é uma questão de se ser solidário, empático, decente.

      Finalmente, dispenso alusões a coisas que não disse. Não disse que toda a tua experiência está inquinada, apenas que há sempre lugar para aprender mais. Há muita coisa que não sabia, mas a partir do momento em que me interesso, e mesmo contra aquilo em que acreditava e julgava saber, procuro outros pontos de vista, outras fontes de informação, e adquiro novos conhecimentos, já não posso dizer que não sei. A questão do privilégio é uma que só recentemente comecei a aprofundar, apesar de sempre ter tido uma noção. E de início a minha reacção até foi sem rejeição, porque afrontava algumas ideias que já tinha. Mas insisti. Porque, lá está, assumi aquela postura de o que sei eu?, e de e se eles têm razão? Mas isto não é uma questão de ser esquerda ou direita, é feitio. É o meu é um feitio avesso ao atavismo, mesmo aquele que me é favorável e confortável, é o feitio de questionar tudo, começando por mim mesma.

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    15. * a minha reação de início foi de rejeição. E há muitos acentos onde não deviam estar e faltam outros, o tablet é uma noia.

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    16. Izzie, para se pagar a taxa máxima de IRS (48%) basta ganhar oitenta mil euros/ano, 5700/mês, depois de impostos = 2700€. Convenhamos que não é assim uma coisa por aí além. Entre oitenta e duzentos e cinquenta passa para 50,5% e acima dos duzentos e cinquenta para os tais 53%. Nem toda a gente que paga a taxa máxima (e atenção que não estou a dizer que sejam mal pagos) ganha cem mil/ano. E os que ganham, pagam IRS (ou pelo menos deviam pagar), pelo que já contribuem com a sua quota-parte. Agora, todos nós sabemos que, quando se ultrapassa um determinado nível de tributação, o resultado é contra-producente. Também acho que as pessoas à esquerda tendem a considerar que as que estão mais à direita são insensíveis, sem cuidar de saber se efectivamente são. Partem simplesmente desse princípio, e foi sobretudo isso que me levou a comentar este post. Não critico a vossa posição (não concordo com ela, mas não a critico), mas fico um bocado "enxofrada" quando vos vejo a generalizar e a caracterizar as pessoas direita/centro-direita como esses "papões exploradores" que se estão nas tintas para os desfavorecidos. É só isso, não é nenhum ataque às vossas convicções.

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    17. Bom, cá em casa estamos muito longe dos 80.000, mas a nossa faixa de rendimentos teve um agravamento de 10%. Se à retenção na fonte de irs somar os 3,5 da sobretaxa, os 11% da cga, e 3,5 da adse, por mês já desconto metade, e, consciente do meu relativo privilégio, ainda assim acho comportável. Tenho casa que posso pagar, frigorífico cheio, posso ir a médicos privados, ano e meio de ordenado líquido em poupanças, carro pago (por mim, e comprado semi novo), e todos os meses ponho dinheiro de lado. Não me visto na avenida da liberdade, nem preciso ou quero, é vivo lindamente assim. Se há quem precisa de mais que eu, pois que trabalhe mais. Mas há quem trabalhe muito mais que eu e tem muito menos, e isso choca- me. Há gente que trabalha e é pobre, e isso pesa- me. Há gente de classe média que não consegue fazer férias sem recorrer a crédito, e isso não é justo. É o equilíbrio só se consegue com uma política fiscal diferente, que não penalize tanto a classe média. Contra mim falo, que não tenho filhos, mas é preciso contabilizar o quociente por cabeça, contando com os dependentes, que também comem.

      Annyhoo, não vejo a direita como um bicho papão. Mas enquanto tiver ministros da economia responsáveis pelo fecho de fábricas, em lugares de responsabilidade de empresas que lhes pagam chorudos ordenados, prémios e outras alcavalas, empresas que receberam fundos comunitários e agora vão condenar ao desemprego dezenas, não contém com a minha simpatia.

      Mas hoje sou uma cidadã esperançada, porque se está a fazer aquilo que peço há anos: a esquerda tem de se entender. Se correr mal, cá estarei e retirarei consequências. Mas não se diga que não há alternativas, e que está é que é a ordem natural das coisas. É tempo dos 99%.

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    18. (Alguns valores e percentagens ali em cima não estão exactos porque, confesso, às vezes me perco com o que me descontam, a adse é progressiva até um máximo de 3,5; e depois há uma percentagem à cabeça no bruto. De qualquer forma, o que ganho ou deixo de ganhar não é bitola para ninguém, para mim chega bem, e vejo os impostos como uma forma de redistribuicao absolutamente necessária, a favor da comunidade. E, ao contrário do que muitos pensam, como esquerdalha nada me move contra quem ganhe mais. Gostava era que tivesse uma correspondência com a importância real do seu trabalho, e não rejeitassem a responsabilidade tributária adicional. Vejam como um reembolso à comunidade que também contribui para que possam ser mais abastados, e que seria do rico sem o padeiro ou quem lhe recolhe o lixo à porta, né.)

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    19. Palmier, para já acho que vês a coisa de forma errada quando assumes que nós, por sermos de esquerda, rotulamos as pessoas de direita como papões exploradores ou más pessoas. Grande parte das minhas grandes amigas de sempre são de direita - virtude de ter andado num colégio privado católico, vê lá tu.
      Agora o que me parece ser a grande diferença, é que enquanto a direita, no geral mais conservadora, acredita que as coisas são como são, e que são o estado natural das coisas, e valoriza mais o factor capital, à esquerda acredita-se mais na possibilidade de mudança para uma sociedade mais justa e com menos diferenças, valorizando mais o factor trabalho.
      Eu não acho que a solução passe por subir imenso os impostos, mas acredito que uma melhor fiscalização e levantamento do sigilo bancário fariam uma grande diferença no que considero ser um dos maiores flagelos: a fuga ao fisco, que é transversal na nossa sociedade, do pobre ao rico (e uma coisa geralmente bem aceite e pouco desaprovada socialmente, completamente diferente dos países nórdicos).
      Da mesma forma, eu não acho justo que haja numa mesma empresa gente a ganhar 5700 e gente a ganhar 570 (não me chateiam os 5700, chateiam-me os 570) - a diferente compensação não corresponde a uma diferença de esforço, mérito, e muito menos de trabalho de 10 vezes. Mas como o dinheiro não estica, e para que uns possam ganhar os 5700 (ou mais), forçosamente muitos têm que ganhar muito menos. E é esta desproporcionalidade que eu condeno.

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    20. Enfim, só para finalizar esta conversa que já vai longa :), sinto, sobretudo nos últimos tempos, no último mês para ser mais precisa, que as pessoas de Esquerda em geral - e não me estou aqui a referir a ti ou à Izzie - estão super agressivas e vou arriscar até um "mais arrogantes", que à Direita não se pode abrir a boca, sem se ser apelidado de "ignorante, egoísta, insensível, ganancioso, etc.". Um bocadinho "a bola é nossa, agora nós é que mandamos no jogo". E se é verdade que esta tensão Esquerda-Direita sempre existiu, também é verdade que existia sobretudo das pessoas para os governantes, das pessoas de Esquerda para o Passos Coelho e seus Ministros e, antes disso, das pessoas de Direita para o Sócrates e seu Governo. E agora virou uma coisa inter-pessoal que me parece muito pouco saudável e que não só divide o país como radicaliza opiniões. E o resultado não pode ser bom...

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    21. Sinceramente, neste último mês e meio tenho ouvido e sentido exaltações de ambos os lados.

      Quanto à maioria relativa do Paf, não me pôs em grande desvario porque a) já estava à espera; b) sei fazer contas. No dia 4/10, de manhã, formulei apenas um desejo: que os partidos da esquerda tivessem o mesmo nº de deputados do PaF mais um. Foi-me concedido. Também me foi concedido outro desejo, que era o de os partidos à esquerda e com projectos anti-austeridade saberem ler os resultados como eu os li, e fazerem alguma coisa. Fizeram. Da direita, vi as reacções mais macacas possível: de "ganhar na secretaria" (ahém: façam as contas), a "golpe de Estado institucional" (lol), novo Prec (mega lol, sabem lá o que foi o prec, btw, já compraram a passagem para o Rio?), Campo Pequeno (hiper lol, não sabem de onde veio esta expressão, que se generalizou? dica: não foi ninguém do PC).

      Enfim. Estavam mesmo à espera que o PS traísse o seu eleitorado, e deixasse passar um OE que simboliza tudo o que combateram? Claro, sempre aconteceu. Era o centrão, o arco da governação e tal, os maçons e opus dei do costume habituados à partilha do poder, a não fazer ondas. Agora ensaia-se uma coisa nova. Vamos ver. Se o meu pai, um grandessíssimo xuxas, que tem um medo irracional do PCP (desculpa-se: afinal passou - ele e muitos colegas - o 25/11 sequestrado por gajos com G3 na EP onde trabalhava) já percebeu que este PCP não é o mesmo de há 40 anos, que tem gente muito capaz, e que no BE também está uma geração muitíssimo capaz, enfim, vamos a isso. Há condições; haja bom senso e haverá uma alternativa. E os que extremam discursos, à direita (não vi o PaF muito interessado em negociar um entendimento com o PS, já agora) e à esquerda (são menos, ainda assim - o Assis vamos a ver quantos vai conseguir reunir no seu jantar de carne assada), que deixem funcionar o sistema.

      Mais uma vez: nada me move, pessoalmente, contra as pessoas de direita, e contra quem tem mais. A luta da esquerda é para diminuir fossos salariais e sociais, e elevar quem está em baixo. Aqueles que nestes últimos anos viram a sua vida a andar para trás, enquanto viam o status quo de muitos manter-se intocável. É possível. Estou como a Câncio: tomara não nos arruinem este sonho.

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    22. Izzie, não digo que não houve excessos dos dois lados. Houve. Mas parece-me compreensível que, tendo a PaF sido o partido/coligação mais votado, que as pessoas que votaram Direita/Centro-Direita se tenham sentido (e continuem a sentir) defraudadas. Sendo certo que a solução de esquerda é constitucional, também é certo que muitas pessoas (por desconhecimento, até) nunca tivessem ponderado este desfecho. Convenhamos que a legitimidade política do António Costa seria muito diferente se o PS tivesse sido o partido mais votado, e não foi. É um Governo que vai coxo. E indo coxo, custa-me (ainda mais) assistir a comportamentos arrogantes (e presumo que não seja a única). Honestamente tenho algumas dúvidas que esta solução funcione a longo prazo. Funcionou para derrubar a Direita mas, a partir do momento em que se verifique que o dinheiro não estica para tudo (acreditas realmente que o Passos fez os cortes que fez só porque é sádico?) a música vai ser muito diferente...

      Enfim... apesar das nossas expectativas serem diametralmente opostas, cá estaremos para ver.

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    23. Eu sei que o dinheiro não estica para tudo. As pessoas que ganham o ordenado mínimo também o sabem. Como sabem.
      Mas desde que vi um empresário de calçado na tv a explicar que não aguentava pagar aos seus trabalhadores €500 por mês, enquanto envergava uma camisa que custava um quarto disso, já acho é que muitos empregadores têm as prioridades mal aferidas e vivem acima das possibilidades dos seus empregados. Ninguém acredita que a Sonae ou a Jerónimo Martins não possa pagar (quando paga) só €600 aos seus caixas.

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    24. *mais que, (caneco).
      (sim, com sábados e domingos e tal. viva o banco de horas.)

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    25. Izzie,

      Moro num sítio cuja câmara municipal é gerida pelo mesmo partido (PCP) desde o 25 de Abril! Só esse facto faz com que eu não tenha ilusões, visto que tudo o que se passa nos outros partidos também se passa por lá. Compadrios e histórias que qualquer cidadão do meu conselho conhece. A começar pelo facto de a Câmara se ter mudado das antigas instalações (decrépitas é certo) para um edificio que foi construído de raiz...
      ...e que é privado e alugado à câmara! E tem um aluguer obsceno!
      Ou podia-se falar em estradas que eram para ir dar a algum lado, mas que os planos do partido fazem com que afinal não vão dar a lado nenhum, isto depois de estarem quase concluídas! O facto de o IMI ser altíssimo!
      Só isto mostra-me que a fé que alguns depositam numa gestão de esquerda vale o que vale! Ou seja, nada! A luta da esquerda só existe a sério quando a esquerda não está numa posição de poder, porque quando está...
      Além disso, se é verdade que o governo do país é (e vai continuar a ser) gerido pela Maçonaria, também não se pode dizer grande coisa quando um Partido faz uma apologia a Estaline e o coloca num pedestal! É que se Deus e o Diabo existem, tenho a certeza que há um cantinho especial no inferno para Hitler e Estaline, se calhar os dois maiores assassinos da história!
      Aqui há pouco tempo tive uma "discussão" com um membro do partido, precisamente por causa duma exaltação a esse dito senhor numa página pública e não partidária do Facebook.
      Apesar de eu lhe falar nos 14.000.000 de pessoas que morreram às mãos do regime desse senhor, e apesar de todas as provas existentes nos arquivos históricos da ex-URSS, ele apenas me afirmava que era tudo falso e que o homem era quase um santo! Apesar das provas que Lenine não o queria ver no poder, nada era verdade!
      Perguntei-lhe na altura se, a ser assim, se os arquivos históricos form, como ele dizia, manipulados, não seria possível que o Hittler tivesse razão e estivessemos todos a ver a coisa pelo prisma errado...
      ...e ele insurgiu-se (e muito bem) dizendo que isso era quase uma heresia!
      Terminei a conversa com ele dizendo-lhe que há que respeitar as crenças religiosas de cada um e os dogmas de fé de cada um. Eu sou católico; ele é comunista!
      Como já disse, não sou de direita nem de esquerda, sou por ideias que me parecem necessárias (por vezes nem sempre o necessário é o justo), ou quando não se aplica a necessidade extrema, por aquilo que acho mais razoável e justo! E não me interessa de onde essas ideias aparecem!

      Esta situação não se deve à traição do eleitorado do PS! O Eleitorado do PS esperava simplesmente que o PS ganhasse estas eleições com uma perna às costas! O que é incrível é que isso não tenha acontecido! E não aconteceu porque o António costa não conseguiu passar a ideia de ser um líder credível. Antes pelo contrário, afundou-se! Tudo o que se passa neste momento é uma tentativa de sobrevivência politica do mesmo, que não quer ficar para a história como o Líder que teve a pior derrota de sempre, sobretudo depois de ter afastado o seu antecessor por não ter tido uma vitória clara...
      Nada do que se passa é para bem do país. Nada do que se passa é para melhorar a vida dos Portugueses!
      Temos uma dívida externa absolutamente brutal! Pagamos mais de juros da mesmo do que gastamos com o SNS! Qualquer deslize empurra-nos de novo para um buraco de onde apenas nos deram a ilusão de que tínhamos saído!
      Os nossos problemas de fundo não são resolvidos! E acredito que vão continuar a não estar!

      Tudo isto só para te dizer que, ao contrario de ti, já não acredito em sonhos!

      :)

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    26. Por pontos:

      - Não sou mentecapta a ponto de achar que a corrupção e compadrio são exclusivas da direita. Claramente não são. As pessoas ou são sérias ou não são, ponto. E, até prova em contrário, não me parece que Catarina Martins, Mariana Mortágua, Marisa Matias e João Oliveira sejam deslumbradinhos sedentos de poder e riqueza.

      - Além do Estaline, junte aí à lista Mao e Pol Pot. Sim, há comunistas que ainda vivem no país da fantasia. Mas na direita também há quem diga barbaridades equiparáveis.

      - Na minha família nuclear há 4 pessoas que fazem parte do "eleitorado do PS", e nenhuma pensava ou pensa como acha. E claro, opiniões há muitas, são como as vaginas.

      - A questão da dívida pública: apesar de tanto sacrifício, sim, aumentou, porque não conseguimos pagar sequer os juros. Por isso é que muitos, entre os quais até eminentes, advogam uma renegociação - é o que se faz em caso de sobrendividamento. E não vamos ser de novo empurrados para o buraco, porque nunca saímos dele.

      - No dia em que deixar de acreditar em alguma coisa, ou me torno uma alcoólica amarga ou corto os pulsos.

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    27. A dívida pública aumentou por causa da estrutura da moeda única! A dívida pública aumentará sempre nos países periféricos na mesma medida em que aumentará o superavit alemão!
      Não adiantará nunca tentarmos tapar o sol com uma peneira! A nossa economia é débil e a nossa produtividade uma lástima! (Atenção, não convém confundir produtividade com trabalho!)
      Mas outros países com economias mais fortes e que estavam em franco desenvolvimento, crescendo bem acima da média europeia, tiveram os mesmos problemas que nós. E porquê?
      Tudo na Europa estava preparado para uma federação que vai ter de acontecer ou a Europa da moeda única vai acabar por se desintegrar depois de lançar numa rota de pobreza quase todos os países europeus (à excepção da Alemanha).
      Aquilo que os partidos deviam estar a pôr em cima da mesa como solução do problema de base é:

      -Continuamos no Euro e cedemos por completo a nossa soberania, transformando-nos numa região autónoma Europeia com um orçamento limitado e aprovado centralmente?

      ou

      -desistimos do Euro e afirmamos a nossa soberania, encarando todos os problemas que daí advém, renegociando a dívida externa e enfrentando a maior recessão de que há memória neste país?

      Quando este assunto vem a debate, é sempre de uma forma radical e exacerbada! Não devia ser, e deveria haver um debate sério sobre esta questão, um debate apartidário, e depois ser posto à consciência de todos para que o país (e não os políticos) pudesse decidir o seu futuro.

      Claro que, provavelmente aconteceria o que aconteceu na Irlanda! Se houvesse um referendo com uma resposta não favorável à Europa...
      ...repetia-se o referendo!

      Enquanto a politica executiva estiver nas mãos dos partidos, enquanto houver disciplina de voto na assembleia, viveremos numa ilusão de democracia, porque, independentemente de quem está no poder executivo, quem manda cá é Bruxelas!
      E se é para Bruxelas continuar a mandar cá, então que nos federemos e que a economia Europeia seja uma, e não esta manta de retalhos que lança dinheiro à pazada para os cofres Alemães sem que estes tenham obrigação de redistribuir o dinheiro pelas áreas periféricas!

      Eu acredito em muita coisa, razão pela qual ainda não me dediquei ao álcool e ainda não cortei os pulsos! Ideologias políticas não fazem parte do rol das minhas crenças!

      :)

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    28. Olá a todos,

      já agora junto-me também a este debate de ideias! :)
      Efectivamente o problema maior parece-me ser aquele que a Luna enuncia no post: é não se perceber que se está um quilómetro à frente e continuar um sem-fim de lamurias que soam completamente despropositadas a quem está um (ou dois, ou três) quilómetros atrás.
      Não se trata de dois sacos: os bons e os maus. Mas tem de se reconhecer que as circunstâncias sociais condicionam e muito as nossas possibilidades.
      Felizmente e no pós-25/4 democratizou-se o acesso à educação, todos os que tinham as capacidades cognitivas e vontade para tal fizeram faculdade mesmo vindo de famílias pouco graduadas academicamente (meu caso, avós analfabetos, pais, com a 4ª classe, fiz escola pública sempre com excelentes notas, faculdade e agora doutoramento... CN Gil remember me?! até cresci na Damaia!;) um meio favorecido muito qb!). Claro que tal coisa seria impensável para uma pessoa na minha situação antes de 25/4/74.
      Tenho o meu emprego, a minha família, a minha casa, tudo conseguido com e apenas o meu trabalho (como se pode ver pela descrição familiar, ajudaram apenas no essencial). Agora não podemos ignorar que se tivesse nascido noutro contexto social, não teria precisado de trabalhar tanto para ter o que tenho hoje e se calhar em vez de iniciar o doutoramento aos 37 anos e a trabalhar e com dois filhos, teria uma licença sem vencimento e faria tudo de uma forma muito mais descansada, e provavelmente teria melhores notas e iria sobressair mais. Também teria ainda mais arcaboiço de conversa para participações ainda mais informadas e inteligentes nas aulas - sobressaía mais!
      A minha irmã esteve há uns tempos num casamento da sócia do meu cunhado. Ficou numa mesa com malta arquitecta e designer, tudo desempregado ou a ganhar pouco, mas com um contexto social bem diferente do dela (o meu cunhado arquiteto passou por uma situação de desemprego há pouco tempo e portanto tiveram de fazer opções um pouco duras para quem tem apenas 30 anos e está a começar a vida...lá está, tiveram de deixar de ser piegas). Tudo pessoas com pouco ou nenhum ordenado, mas que têm n casas espalhadas por Lx, arrendadas, suporte familiar e social óptimo, e portanto, a discussão ao almoço era qual o melhor colégio para as crianças e problemas/vantagens de cada um! E as férias, e os fins-de-semana, aqui e ali.
      Por isso, é preciso os "abençoados" reconhecerem que o são. É preciso perceber que se nasce mesmo "com o rabo virado para a Lua", e que a meritocracia pode estar um pouco enviesada. E por isso, Luna, os meus parabéns por conseguir fazer isso. Por se bater por uma distribuição mais equitativa em vez de se virar para a caridade...
      E sim, CN Gil, esquerda e direita!? What a mess?! Não é fácil viver neste reduto comunista há mais de 25 anos, pagar uma taxa de IMI das mais elevadas do país (pelo menos na Amadora sempre era mais baixa!), ainda não se saber nada sobre a adesão ou não ao desconto familiar, e tudo o resto que vamos assistindo nesta bela localidade na margem sul plantada! POde ser que um dia nos encontremos por cá!

      E Luna, parabéns pelo livro! Não é deste post, mas fica já aqui! Sem bem o que custa tamanha "produção"!
      bj

      Carla

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    29. Carla,

      Em relação às confusões esquerda\direita, apenas te digo que o E.mo Xilre apresentou uma tese de forma pungente e eu concordo!
      -Se o partido mais à direita da representação parlamentar se designa por Centro Democrático Social, isso deve querer dizer que todos os outros estão à sua esquerda!

      Seguindo esta tese, não há direita representada na assembleia da republica, há um centro e muitos sabores de esquerda que oscilam entre várias tonalidades de encarnado, (no caso, encarnado amarelado, encarnado desbotado, encarnado vivo...)

      Há de facto pessoas que partem com vantagens! No entanto, sempre haverá! Ainda que se eliminem todas as variáveis ambientais possíveis, ainda haverá a da porra da genética que é inescapável!
      Eu por exemplo, nunca tive hipótese de ir para uma universidade, por circunstâncias da vida, ou por outra, quando tive já não tinha paciência para tal. Se há pessoas que se consideram diminuídas por isso, eu não sou uma delas e não sinto qualquer falta de formação académica. Não fez mais nem menos de mim!

      Sabes, esta discussão acerca da méritocracia, é como qualquer outra discussão acerca de ideologias. Por exemplo, a ideologia de Marx era perfeita...
      ...mas as pessoas não o são!
      O capitalismo, na sua essência é perfeito...
      ...mas as pessoas não o são!
      A democracia deveria ser perfeita,...
      ...mas não o é...
      ...porque as pessoas não o são!
      Todas as religiões são perfeitas e dizem todas, vagamente, a mesma coisa...
      ...mas os crentes nelas não o são!

      Seja qual for o sistema que seja usado, será sempre justo para uns e injusto para outros! A meritocracia não é diferente!

      E sim, pode ser que nos cruzemos, se é que não nos cruzamos já um carradão de vezes! LOOOOOOOOOOOOOOOOL

      :)

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  12. Vivemos num mundo de tachos, é o que é!

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  13. (sarcasm on)

    "Vivemos num mercado hiper-competitivo e as crianças têm que começar a fazer networking desde muito cedo. Elas precisam de conviver com crianças de sucesso, não com crianças inúteis. Eu fui recrutado para a Opus Dei aos 6 anos e aos 8 já fazia formações em empreendedorismo. Aos 11 era vogal da direcção da JSD de Ourém. Mesmo com as minhas qualidades genéticas, acham que chegaria tão longe como cheguei se tivesse perdido o meu tempo numa escola pública a jogar andebol no desporto escolar com filhos de desempregados e ciganos?
    Se querem que os vossos filhos tenham profissões de sucesso como assessores de Secretários de Estado, consultores ou gestores afastem-nos da escola pública. Na escola pública, o máximo que os vossos filhos podem ambicionar é tornarem-se caixas de supermercado, sociólogos ou actores de teatro.
    A escola pública é uma fábrica de fracassados. Se os esquerdalhos querem continuar a financiá-la, que o façam com os lucros da bilheteira das suas peças de teatro. Com o nosso dinheiro é que não."

    daqui: https://www.facebook.com/jovemcd/posts/994998920543275

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  14. Agora não posso responder, já cá volto amanhã.

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