31 de agosto de 2005

Habituamo-nos

Habituamo-nos a tudo. Habituamo-nos à doença, aos tratamentos, à perda de cabelo. Habituamo-nos à lenta perda de capacidades, à perda de peso. Habituamo-nos à fragilidade e ao cansaço constante. Habituamo-nos à incapacidade de pequenos esforços, à vida de reclusão, à dependência. Habituamo-nos porque gostamos e no fim nem nos parece assim tão mal. Habituamo-nos às frases feitas de alento, às explicações falsas ao telefone “melhorzinho… devagarinho”. Aos sorrisos forçados, para não deixar escapar o desânimo. Habituamo-nos a tudo o que não nos deixe ver a morte anunciada. Por mais um tempo, mais um adiamento. Habituamo-nos a enganar-nos uns aos outros para evitar a tristeza e fugir do que sabemos inevitável.

Será que nos habituamos também à ausência?

30 de agosto de 2005

Muito amigas

Acabavam por me vir cumprimentar quando alguém me apontava, depois de passarem por mim vezes sem conta sem me verem, representando a dor em forma de lágrimas. Davam-me beijos, comentavam o quanto éramos parecidas, e diziam-se “muito amigas”. Eu pensava como era estranho não conhecer as “muito amigas” e como as “muito amigas” não me conheciam a mim, a filha com 25 anos. Outras diziam ter-me conhecido em pequena. E eu questionava-me porque é que pessoas “muito amigas” não a viam há 20 ou 30 anos. Abraçavam-me, choravam, não sei se pretendiam que chorasse nos seus ombros e me consolasse também no seu remorso. Mas como, se não havia qualquer ligação? E acabava eu a consolar desconhecidas que se diziam “muito amigas” de uma infância longínqua. Continuo sem perceber como é que pessoas “muito amigas” não tiveram tempo para telefonar ou aparecer durante os 4 anos em que esteve doente. Não percebo porque tanto choravam por alguém que já não conheciam. Por vezes pensei que se não fosse eu filha, e soubesse ser o meu pai o marido, confundiria os laços familiares no meio de tanto teatro e manifestações de pesar. Mas talvez fosse a sua forma de redenção. Em mim, restou a indiferença e o desprezo à tal amizade.

22 de agosto de 2005

Luto

Estou de luto, e não sei por quanto tempo. Talvez para o resto da vida.

11 de agosto de 2005

Férias

Vou ali num instantinho à Suiça e já volto.
Bem preciso, que isto parece um autêntico manicómio, e o melhor é descansar a cabecinha a bem da minha sanidade mental.
De qualquer forma não me parece que faça grande falta por cá, isto anima-se por si só. Portem-se bem na minha ausência e tomem bem conta da casa.

10 de agosto de 2005

Normal

Por vezes o caricato de situações inesperadas e surreais faz-me pensar que estou rodeada de gente doida. Outras há, em que, olhando melhor, duvido se a doida não serei eu.
É difícil fugir à manada sem receber imediatamente o rótulo de ET.

Difícil

Noite de copos. Imperial após imperial os sentidos expandem-se e o auto-controlo diminui. A partilha torna-se maior e as confidências acontecem.
Fim de noite. Um amigo oferece-me um postal com o escrito "A Difícil", como se dedicado a mim.
É engraçado como por vezes as impressões transmitidas são tão erradas. Ser difícil faz parte de um jogo de sedução em que a presa se não deixa caçar para prolongar a luta e aumentar o interesse e o desejo. Não se aplica portanto quando este simplesmente não existe.
Porque se desejo realmente, sou tão fácil quanto o estalar dos dedos. Eu não sou difícil. O que é difícil é eu desejar.

7 de agosto de 2005

Compras semanais

Costumo ir ao supermercado ao Domingo. Porque detesto supermercados e detesto Domingos, e assim parece-me lógico conjugar a seca das compras semanais com um dia de que à partida não gosto, com ou sem supermercado, e assim só estragar 1 dia da semana.

Mas como dizia, detesto ir ao supermercado. E digo super, não hiper, que isso então seria uma tortura para lá do suportável, e só vou mesmo quando estritamente necessário, aí de 2 em 2 meses, comprar os bens que não encontro em pequenas superfícies. Detesto, tal como as outras tarefas domésticas, para as quais não fui claramente talhada e executo com sacrifício, sabendo que nunca atingirei a perfeição, mas infelizmente as coisas não aparecem feitas, e além de precisar de comer, e gostar de o fazer bem, sou limpinha e asseada e não gosto de viver numa pocilga.

No entanto, em tudo há um lado positivo, e as minhas idas ao super, com um ar desgrenhado e aquela cara de cu domingueira, servem para ver que existem pessoas muito mais feias do que eu, mesmo ao domingo. Desde uma miúda loura pavoneando-se com as vestes mais feias que vi nos últimos tempos, um vestido pavoroso em tons de rosa shocking, vermelho e branco de tecido brilhante sintético e padrão tipo psicadélico a fazer lembrar os Porfírios, a uma senhora com o cabelo mais absurdo possível, castanho escuro em baixo e louro platinado em cima (eu sei, é difícil visualizar, mas infelizmente não sei desenhar para deixar uma ilustração). E eu sinto-me menos sem graça, mesmo com a havaiana no pé e a cara de ressaca do sábado à noite.

"Regras de convivência na praia" ou "Como não cortar relações com os amigos"

Descobri recentemente que a única forma possível de manter amizades após uma ida à praia depende do respeito absoluto das seguintes regras, por mim impostas:
  1. Não comentar o tamanho do bikini, que parece encolher misteriosamente a cada utilização.
  2. Não comentar a forma física que obviamente já viu melhores dias, e muito menos referir a protuberância anatómica situada no fim das costas com adjectivos acabados em "ão".
  3. E principalmente, nunca, jamais, tecer comentários sobre a cor da pele e o facto de ser a pessoa mais branca do areal, muito menos acompanhados de "Fogo, se eu fosse assim branco fazia solário antes de vir à praia" ou "Tás cá com um bronze" entre gargalhadas!

Resumindo, não comentar absolutamente nada que não seja do pescoço para cima. E definidas e respeitadas estas regras, podemos ser amigos outra vez.

5 de agosto de 2005

Jornal das Moças e outras pérolas

Hoje um certo blogger enviou-me este e-mail, certamente convicto de que faria acordar a feminista-queima-soutiens que há em mim:

- Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas. (Jornal das Moças,1957)

- Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar seu carinho e provas de afecto. (Revista Claudia, 1962)

- A desarrumação numa casa-de-banho desperta no marido a vontade de ir tomar banho fora de casa. (Jornal das Moças, 1965)

- A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas. Nada de incomodá-lo com serviços domésticos. (Jornal das Moças, 1959)

- Se o seu marido fuma, não arranje zanga pelo simples facto de cair cinzas nos tapetes. Tenha cinzeiros espalhados por toda casa. (Jornal das Moças, 1957)

- A mulher deve estar ciente que dificilmente um homem pode perdoar a uma mulher que não tenha resistido a experiências pré-núpciais, mostrando que era perfeita e única, exactamente como ele a idealizara. (Revista Claudia, 1962)

- Mesmo que um homem consiga divertir-se com sua namorada ou noiva, na verdade ele não irá gostar de ver que ela cedeu. (Revista Querida, 1954)

- O noivado longo é um perigo. (Revista Querida, 1953)

- É fundamental manter sempre a aparência impecável diante do marido. (Jornal das Moças, 1957)

E para finalizar, a mais de todas:

- O LUGAR DA MULHER É NO LAR. O TRABALHO FORA DE CASA MASCULINIZA.
(Revista Querida, 1955)

A CONCLUSÃO A QUE TODOS OS HOMENS CHEGAM:

Já não se fazem mais revistas didácticas e carregadas de moral como antigamente....



Resta a pergunta, aquela que me faz uma comichãozinha cá no cocuruto: com esposas tão virtuosas e perfeitas, porque é que os maridos passavam o tempo em casas de putas?

À Ritinha



Toda a sorte do mundo no reino da Dinamarca!

Sudoeste

Que raiva não estar aqui durante 4 dias, sem dormir, alimentada a cachorros e cervejolas, e toda sujinha a tomar banho nos canais de rega como fiz noutros verões...

4 de agosto de 2005

Contas

Quando alguém que trabalha para aquecer se põe a fazer contas de cabeça chega a uma ou duas conclusões:
  1. Apanhando no ar conversas telefónicas de contactos comerciais lá da empresa, 500€ para cá, 500€ para lá, concluo que será possivelmente a tabela de preços dos estudos e consequentes relatórios que tenho andado a fazer.
  2. O que quer dizer que em 2 meses de estágio farei ganhar à casa cerca de 700 contos, enquanto recebo menos de 40, que nem são pagos por eles.
Isto serve para me lembrar de fechar a boca quando der por mim a dizer: "Não há problema, o estágio acaba oficialmente dia 18, mas eu fico até ao fim do mês".
Há quem nasça com um P de parva na testa, e eu pertenço sem dúvida a esse grupo de pessoas. E é por isso que vou ser pobre a vida toda.

3 de agosto de 2005

Roubo

Chegam-me nítidas do andar de baixo as palavras indignadas do meu pai, durante a minha ronda pelos blogs, após a abertura do telejornal:

- Roubo! Considero isto um roubo, um roubo legal, mas um roubo. Tenho mais respeito por um gajo que entre de metralhadora num banco. Sabes quantos são 700 mil euros? São 140 mil contos!

Ao mesmo tempo abria o Neo-Normal e, ao ler as gordas, nem foi preciso ler o resto para perceber imediatamente do que se tratava.

É de facto ultrajante, que num país em contenção de despesas, em que andamos todos a apertar o cinto para pagar o défice, se permitam roubos legais como estes, sob a forma de indemnizações e reformas milionárias, por vezes após meses de trabalho. Haja vergonha país!

1 de agosto de 2005

Futuro

Passamos o tempo a lamentarmo-nos. Somos assim, é cultural. Queixamo-nos disto e daquilo, do que foi feito ou ficou por fazer, da pouca sorte que nos calhou e invejando a sorte do vizinho que ganhou a lotaria ou um prémio de 20 € no Euro milhões, que a nós que nunca nos calha nada, bem, é certo que não jogamos, mas de certeza que se jogássemos era sempre a mesma coisa, calhava sempre ao vizinho e a nós nem uns quantos cêntimos.

E lá estava eu a deixar-me arrastar pelo queixume, à espera que uma oportunidade irreal me caísse do céu, pouco fazendo para que ela chegasse. Ai tadinha de mim, que tanto quero trabalhar em ciência e não consigo, ai que não arranjo bolsa, ai que não tenho média para fazer doutoramento directo, ai que vou passar o resto da minha vida a fazer o que não gosto, ai isto, ai aquilo, simplesmente ai.

Mas por vezes a sorte muda quando paramos para pensar e traçar objectivos. Porque não vale a pena remar contra a maré nem esperar eternamente por coisas que sabemos que não chegarão nunca nas condições em que nos encontramos. Porque não é pensando no que poderia ter sido que mudamos o que é. Porque há que ver mais longe. E é aí que os planos têm que ser desenhados, por nós mesmos, mesmo que sacrificando a nossa independência por mais uns anos, mesmo sem ganhar bem, e principalmente enfrentando a dificuldade de fazer escolhas, tudo para atingir os nossos objectivos. Passo a passo, construindo a estrada que nos há de levar ao destino pretendido.

E por vezes aparece uma luz ao fundo do tunel, mesmo quando já nada o fazia esperar, porque se arriscou, porque se apelou, se recorreu a quem tem poder e com um não garantido se teve coragem de pedir, mesmo sem acreditar numa resposta positiva. E por isso tenho uma entrevista marcada para Setembro, para um mestrado cujas inscrições terminaram a 1 de Julho, e se cheguei até aqui, por que não continuar em frente?