Gostava de ser daquelas pessoas que sabem sempre o que querem fazer. Que desde os cinco anos decidiram que queriam ser médicos ou professores, e persistiram nos seus propósitos sem hesitações ou desvios de caminho. Que sabem o que querem ser e quando. Que sabem quando querem casar, onde querem viver, quantos filhos ter ou se os ter. Que se arriscam a mudar, ou a não o fazer de todo, que por vezes a estabilidade é a coisa mais assustadora do mundo. Que compram casa e não se importam de saber que daqui a cinquenta anos estarão a morar no mesmo sítio, na mesma casa que pagaram a longas prestações. Que mantêm os mesmos amigos, maridos, amantes. O mesmo país, cidade ou aldeia. Os mesmos sabores, a mesma música, a mesma dança, porque sabem do que gostam e não precisam de algo mais. Gostava de ser assim, de conseguir gritar convicta "aqui vou ser feliz" em vez de me cantar constantemente ao ouvido o Variações e o seu "Estou além" e de não pensar e repensar mil vezes as várias opções, sempre com medo de escolher a resposta errada. Gostava de ser assim, mas não sou. E fico à espera que alguém me diga o que escolher, o que fazer, qual o melhor caminho a seguir. O pior é esse alguém ter de ser eu. Logo eu, que nem consigo decidir rapidamente o que quero comer. Má, má escolha. Não se arranjava ninguém mais qualificado?