Estava para chegar o dia em que me tornasse oficialmente uma fora-da-lei. Demorou trinta anos, mas chegou. Esse dia, ou melhor, noite, foi ontem, quando fugi à polícia de bicicleta. Voltava para casa com uma amiga, que me veio visitar, depois de uma noite de copos, quando um carro da polícia abranda ao meu lado e me perguntam pelas luzes. Digo que se partiu o encaixe - o que é verdade -, enquanto faço contas de cabeça à multa, e eles dizem-me para os seguir, virando à direita uns metros à frente. E foi numa fracção de segundos que decidi virar foragida, ao vê-los parados à direita aí a uns cinquenta metros. Disse à minha amiga para seguir em frente e pedalar mais depressa, metemo-nos pela rua onde nasceu Rembrandt, fechada ao trânsito automóvel, estatelámo-nos ambas com intervalo de dois segundos na ponte levadiça que obriga a mais balanço do que tínhamos dado, levantámo-nos à pressa, atalhámos pelo parque do moinho e em menos de nada estávamos em casa a rir feitas parvas.
Agora, aqui para nós, só mesmo nestes países é que os polícias acham mesmo que as pessoas os irão seguir alegremente para ser multadas, dando-lhes a hipótese de não o fazer. Que totós.
Adenda: Às pessoas que acham isto terrível e abominável, como se tivesse sido um hit and run ou coisa do género, passo a esclarecer: no fundo eles deixaram-nos ir. Foi isso que aconteceu, fecharam os olhos. Se quisessem mesmo apanhar-nos tê-lo iam feito, ok? Era só parar o carro ali mesmo. E não tinham seguido. Só que assim a história não tinha metade da piada que na altura a ilusão da fuga teve. Obrigada por terem conseguido retirar qualquer graça à coisa e conseguirem fazer disto um "crime" gravíssimo contra a autoridade. I should've known I could count with you for that.