Quantos são?Eu, uma pessoa que consegue manter a calma e sangue frio em quase todas as situações de crise, conseguindo agir racionalmente e sem nunca entrar em histeria, o que, juntamente com a minha contida afectividade me valeu o título carinhoso de "the rock" ou "o rochedo" por parte da minha ex-flatmate do coração, tenho um calcanhar de aquiles, que, a bem dizer, é bem mais que um calcanhar, é um corpo todo, se me é permitida a expressão.
E, se não é assim tão fácil tirar-me do sério, levando-me ao limite da minha paciência - o que eu gostava de usar antes um push me to the limit, que ficava tão melhor -, o que será conseguido através de grande insistência e contestação pelo uso de argumentos absurdos, com que me sinta atacada, qual animal selvagem, o enfado inicial passa a atitude defensiva, a atitude defensiva a irritação, e a irritação a explosão de fúria, dando origem àquilo que eu chamo os momentos em que me transformo em psicopata - bem, psicopata talvez seja demasiado forte, digamos antes gaja completamente descontrolada e fora de si, o que, como muitos saberão, já é mau o suficiente - e liberto o Hulk aprisionado em mim, indo tudo à frente, como se diz na gíria. Para o bem da humanidade em geral, e os meus próximos em particular, acontece poucas vezes, mas o cansaço, a fome, o mau humor matinal, e, porque não, o estado hormonal, potenciam grandemente estes eventos, onde não é bom estar ao pé de mim e muito menos ser o seu causador.
Uma das últimas vezes que aconteceu foi durante a apresentação de um trabalho de grupo, onde me vi obrigada a defender uma ideia com a qual discordei desde início. Estando muito cansada, irritada e descontente em geral, depois de perguntas insistentes e idiotas, a gota fez transbordar o copo quando me perguntaram se a nossa formulação injectável - intramuscular - não podia entrar directamente para a circulação sanguínea e matar o paciente. Sob o olhar atónito e boquiaberto do meu flatmate, que na assistência me olhava com a expressão "está louca", e que creio ter desde então passado a ter um bocado medo de mim, dei por mim agressivamente a responder que "claro que sim, especialmente se injectarmos directamente na jugular", acompanhando com o gesto de espetar algo no pescoço. Valeu-me uma companheira de grupo, que tomou conta da discussão, antes que eu assassinasse o inquiridor. E esta nem foi muito grave, se pensarmos na vez em que explodi em pleno tribunal, onde a advogada de acusação me perguntou umas 400 vezes se eu tinha a certeza e podia garantir que o meu amigo, de quem era testemunha, não tinha feito aquilo de que era acusado e acabei a responder que "também não podia garantir que ele nunca tivesse matado ninguém, porque realmente não estava com ele 24 horas por dia, mas que achava que não". Felizmente, a juíza, pessoa de bom senso, e possivelmente temendo a segurança dos presentes, achou por bem terminar o interrogatório, declarando que "a testemunha já respondeu várias vezes que nunca viu nem nunca ouviu dizer que". Antes disso, tinha-me passado também durante a instrução e acabado a discutir com o juiz, com a advogada de defesa a levar as mãos à cabeça, mas que resultou apenas no maior sermão de sempre, talvez por ser miúda e o juiz até ter achado piada à coisa.
Lembro ainda as vezes em que, esquecendo-me do meu metro e meio, enfrentei pessoas bastante maiores que eu, arriscando-me a ficar sem dentes da frente, como quando puxei a mão atrás e preguei o maior chapadão da minha vida num tipo que estava a bater numa amiga minha, só depois me lembrando que se batia nela não teria grandes pruridos em bater também em mim, e "ai que agora vai ser a minha vez".
Não foi, nunca foi. Talvez por sair de mim e deixar de ter medo, talvez por de repente me sentir invencível, e com mais 2 metros de altura, talvez por isso transparecer e assustar as pessoas normais, não sei. Mas umas aulinhas de yoga, muito inspira e expira e conta até 100 eram capazes de não me fazer mal.