Hoje fui ao teatro, pela primeira vez desde que cá vivo. Como podem imaginar, não é algo que tenha grande oportunidade de fazer, uma vez que não falo holandês, pelo que prontamente acedi ao convite para ir ver Romeu e Julieta quando soube que a peça era em inglês. Grande erro. O problema de Shakespeare é que, sendo sublime quando é bem representado, é dolorosamente mau quando não o é, com a agravante de ser dolorosamente mau durante muito tempo. E é por isso que comecei a sofrer logo nos primeiros minutos, por antecipação de quão mau ia ser, confirmando que ia ser ainda pior na primeira cena com a Julieta. Ora, uma pessoa espera uma Julieta bonita e delicada, ou vá, à falta de uma beldade, pelo menos uma Julieta carismática e graciosa, mas nunca uma Julieta cuja postura corporal faça as irmãs olsen parecerem primas bailarinas do Ballet Bolshoi. E como se não fosse suficiente a total falta de encanto, tornando inútil o esforço de tentar acreditar no amor à primeira vista pela marreca do baile, a dicção era tão boa tão boa que eu não conseguia perceber uma única palavra. Ia olhando para os meus amigos, ora para um lado, ora para o outro, tentando perceber pelas suas expressões se estavam tão horrorizados quanto eu, repetindo para mim mesma "this is terrible, this is awful, this is excruciating, this is painfully long" enquanto rezava por um intervalo para me poder pirar. O intervalo chegou, finalmente, e pela primeira vez na vida, não fiquei para a segunda parte. Nem a Aline, que ao meu lado rezava para não ser a única a achar aquilo horrível e poder ir embora também, respirando de alívio quando eu disse "I think I'm gonna go now". Deixámos lá um resistente, que deve neste momento estar mesmo muito arrependido. É que todos sabemos como acaba, e não é um final feliz. Excepto quando é, por ser o final.
Update: O meu amigo resistente adormeceu na segunda parte.